O Calvo do Campari foi solto — e o Brasil mostrou de novo que odeia mulheres. Por Nathalí

Atualizado em 30 de novembro de 2025 às 11:56
Thiago Schultz, o “Calvo do Campari” Foto: Reprodução/YouTube

O tal “calvo do Campari” já está livre depois de agredir a namorada, Lais Angeli Gamarra — violência comprovada em exame de corpo de delito.

Thiago Schutz se tornou conhecido após participar do reality “O Crush Perfeito”. Surfou na onda, ganhou seguidores e construiu uma persona de “coach de masculinidade”, defendendo abertamente o ódio às mulheres.

É importante frisar o conceito de redpills, caso alguém ainda não esteja familiarizado: homens rejeitados por mulheres livres se juntam para decidir como as mulheres devem se comportar, sustentando que somos manipuladoras, interesseiras ou inferiores.

Em outras palavras: homens de masculinidade frágil, ressentidos, passam a exigir submissão e obediência, já que — segundo eles — o homem é um “líder natural”.

Quando um influenciador de masculinidade (seria cômico se não fosse trágico) propaga uma ideologia que desclassifica mulheres deliberadamente, algo precisa ser visto com atenção: por que a violência simbólica dos red pills não é punida?

Pensemos: se um racista inventasse um curso sobre como ser racista, estaria preso; mas quando o alvo é mulher, aparentemente, tudo é permitido.

Abençoado com a impunidade, Thiago foi solto provisoriamente mesmo tendo sido preso em flagrante — uma aberração jurídica injustificável. A mulher apanhou tanto e sentiu tanto medo que fugiu. Foi encontrada na rua com marcas claras de agressão. Na delegacia, ele prestou depoimento e saiu pela porta da frente, livre para agredir de novo ou, quem sabe, terminar o serviço.

Graças a uma medida protetiva, ele não pode se aproximar da ex-namorada. Infelizmente, isso não significa muita coisa: mais de 18% das medidas protetivas no Brasil são descumpridas, quase nunca resultando em prisão, ao contrário do que determina a lei. Uma ideologia completamente apoiada na misoginia deveria, por si só, ser crime.

Em vez disso, imbecis como o calvo do Campari seguem dizendo (e fazendo) absurdos sem nenhuma consequência. Pior: esse tipo de violentador tem fãs — mais de 400 mil seguidores — o que diz muito sobre o estado emocional e moral de parte da nossa população.

E é necessário perguntar o óbvio: se misoginia é crime, por que seguimos admitindo conteúdos ofensivos e violentos como os dele? Ninguém se importa. E ainda tem quem defenda a “liberdade de expressão” desses vermes — liberdade para odiar mulheres, não só no discurso, mas, como provou Thiago, também na prática. Liberdade de expressão é meu ovário.

O fato é simples: esse sujeito deveria ser seguido apenas pela polícia. O problema é que temos muitos exemplares como ele — e, no país que mais mata mulheres no mundo, a misoginia virou ideologia.

Enquanto a violência simbólica contra mulheres continuar sendo tratada como “conteúdo” e não como crime, todo Thiago Schutz da vida se sentirá autorizado a existir, a lucrar e a bater. O caso do calvo do Campari não é exceção: é sintoma. E o Brasil, ao permitir que essa doença se espalhe sem tratamento, escolhe todos os dias quem pode viver — e quem pode ser espancada até que vire só mais um número no feminicidômetro.

Nathalí Macedo
Nathalí Macedo, escritora baiana com 15 anos de experiência e 3 livros publicados: As mulheres que possuo (2014), Ser adulta e outras banalidades (2017) e A tragédia política como entretenimento (2023). Doutora em crítica cultural. Escreve, pinta e borda.