O candidato que recebeu R$ 600 mil do PL para fazer filme sobre comunismo

Atualizado em 30 de junho de 2026 às 11:43
Valdemar Costa Neto, presidente do PL. Foto: reprodução

O diretório nacional do PL, comandado por Valdemar Costa Neto, pagou R$ 600 mil do fundo partidário à ONG Passos da Liberdade, presidida por um pré-candidato da legenda no Rio Grande do Sul, para a prestação de serviços de comunicação em Minas Gerais. A entidade também é responsável pela produção do documentário “Nós”, sobre supostos “regimes autoritários comunistas”, financiado com emendas parlamentares.

A ONG, sediada em Porto Alegre, é presidida por Rodrigo Cassol Lima, pré-candidato a deputado estadual pelo PL. Entre janeiro e abril deste ano, a entidade recebeu R$ 150 mil mensais do partido. Segundo nota fiscal apresentada pela legenda e obtida pela Folha, o pagamento foi feito pela “prestação de serviços de assessoria em comunicação e de produção audiovisual no Estado de Minas Gerais”.

Criada em 2023, a Passos da Liberdade é registrada como associação “de defesa de direitos sociais”. De perfil conservador, a entidade prepara o lançamento do documentário “Nós”, antes chamado de “Genocidas”.

A produção recebeu R$ 860 mil em emendas dos deputados do PL Mario Frias (SP) e Marcos Pollon (MS), além de Eduardo Bolsonaro (SP), que perdeu o mandato em dezembro. A estreia está marcada para 15 de julho, em Brasília.

O filme deve abordar regimes autoritários comunistas na Europa após a Segunda Guerra Mundial. De acordo com o trailer, a produção teve gravações em países como Polônia, Alemanha, República Tcheca e Hungria. O documentário não tem ligação nem deve citar o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Rodrigo Cassol Lima e Flávio Bolsonaro. Foto: reprodução

A direção é de Gustavo Lopes, que foi secretário nacional de Audiovisual em 2022, no último ano do governo Bolsonaro. Ele também passou pela comunicação do Ministério do Trabalho e Previdência e pela Casa Civil. Lopes é autor de livros de viés conservador, como “Guerra Cultural” e “Liberdade Ameaçada”, este em parceria com nomes da direita, entre eles o deputado Marcos Pollon.

Rodrigo Cassol Lima aparece como coprodutor e responsável jurídico do documentário. Doriel Francisco é citado como corroteirista. Ele é dono da Dori Filmes, produtora de “A Colisão dos Destinos”, documentário sobre a trajetória de Bolsonaro da infância até a Presidência.

Procurada, a Passos da Liberdade confirmou ter contrato com o PL “para a prestação de serviços de comunicação institucional, com entrega de produto audiovisual”. A organização afirmou que a “contratação tem natureza institucional e não se confunde com pré-campanha, campanha eleitoral, propaganda eleitoral ou promoção pessoal de qualquer dirigente da entidade”.

Sobre Cassol Lima, a ONG disse que “não há remuneração, honorários ou qualquer vantagem pessoal ao diretor-presidente da associação em razão desse contrato”. A entidade também afirmou que a contratação não tem relação com projetos executados no Ministério da Cultura.

A Passos da Liberdade negou ligação com o filme “Dark Horse”, pivô de crise envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. “São iniciativas distintas, com objetos, fontes, finalidades e regimes próprios”, afirmou. A ONG disse ainda que não poderia detalhar o contrato com o PL por cláusula de confidencialidade.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.