O cansativo debate sobre a ‘legalidade’ das atrocidades nazifascistas. Por Moisés Mendes

Atualizado em 28 de fevereiro de 2026 às 23:53
Escombros no Irã após bombardeios. Foto: Reprodução

Uma crueldade complementar a toda ação destrutiva provocada por nazifascistas é o próprio debate que a ‘legalidade’ da destruição desencadeia.

É o que transforma tudo em controvérsia do mundo liberal sobre o que é legal ou ilegal numa guerra, num golpe ou quando da sonegação deliberada de vacina para matar gente numa pandemia, como aconteceu no Brasil.

É a obsessão do jornalismo e de seus especialistas: oferecer direito de fala a todas as vozes discordantes, para que se criem equivalências sobre divergências em torno de leis e normas. Falar contra ou a favor de uma guerra é também buscar argumentos legais que a justifiquem.

Tudo a partir da sustentação de uma premissa sempre aparentemente complexa. É legal atacar uma cidade e matar mais de 70 crianças de uma escola, como ocorreu em Teerã?

É o que acontece de novo agora quando Trump ataca o Irã e, no primeiro dia, para matar aiatolás, acaba também assassinando estudantes. Por descuido, por erro, por falha, é o que eles dizem.

Estão debatendo em todos os jornais do mundo, começando pelos americanos, se essa guerra pode ser sustentada por alguma base legal. Trump poderia atacar o Irã sem pedir licença? É mesmo um ataque em nome da defesa de um país?

O Brasil debateu por meses se Bolsonaro poderia atacar os brasileiros ao negar a todos nós o direito de se defender de um vírus na pandemia. Se ele tinha autoridade para deliberar que ninguém teria vacinas oferecidas pelo Estado.

Assim como debatemos durante meses se ele e seus generais poderiam ter, em nome da ordem, preparado o golpe de 2022 que se entendeu a 2023. Esse argumento da defesa da ordem apareceu antes, durante e depois do julgamento.

Trump age em nome da defesa do seu país e da ordem mundial. E assim as manchetes mundiais levam o debate da questão sobre o pode ou não pode a esse resumo óbvio: o ataque é ilegal e não atende ao pretexto da autodefesa.

Mas e daí? Trump precisa de argumentos legais? É inócuo o campo do debate. Os Estados Unidos nunca precisaram de lastro legal para perpetrar agressões.

Trump não precisou de licença da ONU ou do Congresso para invadir a Venezuela e sequestrar Maduro. Não vai precisar para o próximo plano, quando houver cansaço com a guerra contra o Irã. Vai invadir Cuba.

Repetem que, pelo que determina a ONU, um país só pode atacar outro em caso de legítima defesa ou se o ataque for aprovado pelo Conselho e Segurança da própria ONU. Bush atacou o Iraque sem autorização.

O lider iraniano Ali Khamenei

Trump atacou o Irã em junho do ano passado. Já havia atacado o Vietnã, o Panamá, o Afeganistão, a Líbia, a Síria e dezenas de países. Já haviam tentado invadir Cuba. Atacam barcos de ‘traficantes’ perto da Venezuela e da Colômbia e no Caribe.

O The New York Times perguntou em editorial, com todo o respeito e a sempre presente candura dos jornalões com os gângsteres mundiais: “Por que o senhor iniciou esta guerra, senhor presidente Trump?”.

É um tratamento de alto nível. Os jornalões que chamavam Maduro de ditador tratam Trump como ‘senhor presidente Trump’. Dedicam-se ao cerimonial das normalidades de um mundo anormal, governado por gente anormal.

E vão abrindo espaços para que os especialistas digam se o que acontece sob as ordens do nazifascismo é razoável, aceitável e legal. Mesmo que o desejo de Trump esteja na capa do Wall Street Journal:

“Tudo o que eu quero é liberdade para o povo iraniano”

Como alguém pode questionar a legalidade dos atos de quem deseja a liberdade dos outros?

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/