
Por Carmen Navas Reyes e Yohaickel Nazer Seijas Elles
Os Estados Unidos deslocaram forças militares no Caribe e designaram o inexistente “Cartel dos Sóis” como organização terrorista, apesar de não existirem provas em relatórios oficiais sobre sua existência. O termo surgiu nos anos 1990 e está vinculado a operações encobertas da CIA. Essa narrativa busca justificar sanções e uma possível intervenção militar, seguindo precedentes como Panamá e Iraque. No fundo, trata-se de uma estratégia geopolítica para controlar os recursos da Venezuela e limitar a influência de potências rivais
Nas últimas semanas, os Estados Unidos da América intensificaram dramaticamente a pressão militar no Caribe, enviando seu mais moderno porta-aviões, o USS Gerald R. Ford, no que Washington apresenta como uma “operação antidrogas”, mas que está principalmente dirigida contra as supostas “organizações terroristas” sediadas na Venezuela, alegadamente operadas pelo Governo venezuelano.
Paralelamente, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a designação do inexistente “Cartel dos Sóis” da Venezuela como Organização Terrorista Estrangeira a partir de 24 de novembro.
Segundo a declaração do secretário de Estado Marco Rubio, o “Cartel dos Sóis” seria chefiado pelo próprio presidente Nicolás Maduro, junto com altos funcionários de seu “regime ilegítimo”. Essa manobra representa um passo grave na escalada que busca preparar o terreno para possíveis operações militares em território venezuelano, sob o pretexto da luta antidrogas. O próprio presidente Donald Trump insinuou que “tomou uma decisão” sobre como proceder na Venezuela, recusando-se a descartar explicitamente uma intervenção armada.
Apesar das afirmações de Washington, o suposto “Cartel dos Sóis” não existia até pouco tempo atrás para as agências especializadas. Em 1993, o termo foi cunhado pela primeira vez durante a investigação de dois generais da Guarda Nacional, cujos uniformes ostentavam sóis dourados, acusados de desviar carregamentos de cocaína. Paradoxalmente, um desses generais havia autorizado um envio de cocaína aos Estados Unidos por ordem da CIA, supostamente como parte de uma operação encoberta para infiltrar cartéis colombianos. Ou seja, já nos primórdios dessa história aparece a mão da inteligência estadunidense facilitando atividades de narcotráfico na Venezuela.

De fato, Jordan Goudreau, um ex-boina verde dos Estados Unidos implicado na fracassada incursão armada “Operação Gedeón” de 2020 contra o presidente Nicolás Maduro, afirmou recentemente que “o Cartel dos Sóis foi criado pela CIA” nos anos 1990. Em entrevista ao The Grayzone, Goudreau assegurou que o nome teria surgido quase “como uma piada interna”, baseado nos sóis dos uniformes venezuelanos, enquanto a CIA facilitava o tráfico de drogas através desse grupo para seus próprios interesses, algo que ele qualifica como “bem documentado”.
Após sua criação nos anos 1990, o termo “Cartel dos Sóis” foi reciclado esporadicamente em círculos midiáticos e da oposição venezuelana, mas sem maior respaldo probatório. Setores da imprensa local amplificaram histórias de supostos generais narcotraficantes sempre que buscavam escândalos contra o governo. Com o passar dos anos, essa etiqueta passou a fazer parte do léxico da oposição extremista, utilizada para desacreditar a Força Armada Nacional Bolivariana e apresentá-la como uma máfia do narcotráfico. Um exemplo notório foi a acusação, sem provas, por parte de um ex-guarda-costas desertor, contra o então presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, de liderar o suposto cartel.
Desde então, figuras radicais da oposição venezuelana e ex-militares desertores fizeram lobby em Washington para legitimar essa narrativa. Essa campanha busca não apenas desprestigiar o governo do presidente Maduro, mas provocar mais sanções e, eventualmente, justificar uma intervenção estrangeira. Durante o segundo governo Trump, esses setores encontraram eco em funcionários como Marco Rubio, que passou a utilizar oficialmente o termo no Departamento de Estado para acusar o governo venezuelano de “narcoterrorismo”.
Ironicamente, cabe destacar que em nenhum dos relatórios anuais sobre narcóticos do Departamento de Estado ou da DEA desde 1999 se menciona o “Cartel dos Sóis”, nem ele é identificado como ameaça específica. Tampouco os relatórios internacionais da ONU em matéria de drogas registraram a existência de tal organização na Venezuela. Pelo contrário, as agências especializadas apontam Colômbia, Peru e Bolívia como os grandes produtores de cocaína, enquanto a Venezuela não figura como país produtor e suas apreensões de drogas representam apenas 1–2% do total mundial. Esses dados reafirmam que a Venezuela tem sido mais um país de trânsito limitado, e não a base de operações de um poderoso cartel global.
Apesar disso, em março de 2020, em pleno auge da política de pressão de Trump contra Caracas, o Departamento de Justiça dos EUA incluiu pela primeira vez as palavras “Cartel dos Sóis” em uma acusação, ao atribuir crimes de “narcoterrorismo” ao presidente Maduro e a outros altos funcionários venezuelanos. Essa acusação alegava que a conspiração narcotraficante existia “pelo menos desde 1999”, marcando a entrada da narrativa em documentos oficiais dos EUA. No entanto, é revelador que poucos meses antes, o próprio Relatório de Estratégia Internacional de Controle de Narcóticos 2020 do Departamento de Estado não fazia qualquer menção ao suposto Cartel dos Sóis nem vinculava o presidente venezuelano ao tráfico de drogas.

Além disso, essa narrativa não cumpre nem mesmo os requisitos legais dos EUA para ser declarada Organização Terrorista Estrangeira. A lei estadunidense estabelece critérios rigorosos: o grupo deve ser uma organização estrangeira real, estar envolvido em atividade terrorista e representar ameaça à segurança dos cidadãos dos EUA ou à segurança nacional. No caso do suposto Cartel dos Sóis, é evidente que esses critérios não são atendidos.
Primeiro, não se trata de uma entidade organizada identificável, mas de um conceito difuso usado para descrever uma suposta “rede descentralizada incrustada no Estado venezuelano”, o que nem sequer se qualifica como organização designável. Em segundo lugar, não existe evidência de que essa rede tenha cometido atividades terroristas segundo as próprias leis dos EUA, ou seja, atos de violência deliberada contra civis para coagir um governo ou obter objetivos políticos.
Para contornar esse obstáculo, Washington tenta apresentar o “Cartel dos Sóis” como aliado de grupos terroristas reais, alegando que essa suposta organização fornece “apoio material” a outros entes designados como terroristas, incluindo o cartel mexicano de Sinaloa e a extinta quadrilha venezuelana “Tren de Aragua”. No entanto, tais afirmações não são respaldadas por provas públicas.
O governo dos Estados Unidos sabe que essa narrativa não reflete a realidade, mas que possui utilidade geopolítica: cria uma justificativa pré-fabricada para uma intervenção militar. Toda essa construção do “Cartel dos Sóis” não passa de um pretexto elaborado para os objetivos reais de Washington: tentar derrubar o Governo Bolivariano e instaurar um regime subordinado a seus interesses.
A operação naval em curso, agora denominada “Operação Lança do Sul”, e a súbita classificação terrorista deixaram clara a intenção do governo estadunidense de forçar, por qualquer meio, a saída do presidente Nicolás Maduro.
Não é a primeira vez que os EUA recorrem a táticas semelhantes: em 1989, invadiram o Panamá sob a justificativa de que Manuel Noriega era um “narcotraficante perigoso”; em 2003, construíram a narrativa das “armas de destruição em massa” para invadir o Iraque. Agora, com a Venezuela, tentam uma combinação de ambos os roteiros — narcotráfico e terrorismo — adaptados para demonizar o Governo Bolivariano e assim legitimar ações de força que, de outro modo, seriam condenadas.
Não é casual que a Venezuela possua as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, além de ouro, coltan e outros recursos cobiçados. Setores nos EUA expressaram abertamente que veriam com bons olhos uma mudança de regime que abrisse essas riquezas ao controle das corporações norte-americanas, demonstrando que a política em relação à Venezuela é guiada por uma versão atualizada da Doutrina Monroe, buscando conter a influência da China, da Rússia e do Irã na região e assegurar para Washington o controle de áreas de importância geopolítica e de seus recursos.
É por isso que apresentar o governo venezuelano como um “narco-regime terrorista” forneceria o casus belli perfeito para uma intervenção “legítima” aos olhos de Washington.