O caso de Alanis Guillen prova que amor entre mulheres também pode ser violento

Atualizado em 5 de maio de 2026 às 15:36
Alanis Guillen. Foto: Reprodução

Ledo engano pensar que relacionamentos homoafetivos não sofrem das mesmas vicissitudes dos relacionamentos heteroafetivos. A heteronormatividade está em tudo, até nas relações que procuram negá-la.

Aliás, não me interessa dissecar o relacionamento alheio, mas compreender de que maneira a dinâmica das relações diz sobre nossa sociedade e modos de vida não é uma escolha, é uma necessidade.

Alanis Guillen, a Juma Marruá do remake global de Pantanal, entrou com medida protetiva contra a ex-namorada, a produtora Giovanna Reis, depois de mais de 50 tentativas de contato inoportunas. Concedida a medida, Giovanna não pode se aproximar da ex, nem tentar contato por nenhum meio.

O relacionamento chegou ao fim recentemente após viralizarem posts preconceituosos de Giovanna, com falas racistas, homofóbicas e gordofóbicas — não vale a pena reproduzir.

Em vez disso, vale uma reflexão mais produtiva: as medidas protetivas são usadas massivamente para defesa de mulheres contra seus agressores.

Funcionam? Nem sempre, mas existem pra isso.

Quem pensaria que uma medida protetiva pudesse ser necessária de mulher para mulher?

Pois é.

Giovanna Reis e Alanis Guillen. Foto: Reprodução

Os relacionamentos homoafetivos não fogem à lógica das dinâmicas relacionais: são também permeados por assimetrias e violências.

O que é preciso que compreendamos, e com máxima urgência, é que a heteronormatividade não está só nos lugares mais óbvios: está em todos os lugares.

Uma lógica de toxicidade que não respeita o espaço do outro, de inadmissibilidade da quebra de vínculo e, muitas vezes, de violência — vide a relação de Gal Costa com sua agora viúva.

Convenhamos: a gente ainda insiste numa fantasia juvenil de que trocar o gênero das pessoas envolvidas em uma relação automaticamente melhora sua qualidade, como se bastasse sair do roteiro hétero pra entrar num spin-off emocionalmente mais evoluído.

Não entra. O roteiro é outro, mas os vícios de controle, dependência e drama continuam com o mesmo elenco interno de sempre.

Não o se trata de orientação sexual, mas de estrutura: quando o “amor” (romântico) é contaminado pela lógica capital de posse e controle, vira disputa. E é aí que os relacionamentos homoafetivos reproduzem exatamente aquilo que juraram destruir.

Nathalí Macedo
Nathalí Macedo, escritora baiana com 15 anos de experiência e 3 livros publicados: As mulheres que possuo (2014), Ser adulta e outras banalidades (2017) e A tragédia política como entretenimento (2023). Doutora em crítica cultural. Escreve, pinta e borda.