O caso Ed Motta revela o drama por trás do enochato alcoólatra

Atualizado em 9 de maio de 2026 às 13:05
Ed Motta tomando vinho. Foto: reprodução

O escândalo envolvendo o cantor Ed Motta no restaurante Grado, no Rio, expôs mais do que uma briga por taxa de rolha.

Revelou um personagem conhecido da elite etílica brasileira.

É o enochato que transforma vinho em instrumento de arrogância e que muitas vezes usa sofisticação como verniz para um problema bem menos glamouroso: o alcoolismo.

A confusão aconteceu no sábado (2), no restaurante do chef Nello Garaventa e de sua mulher, Lara Atamian, no Jardim Botânico. Segundo comunicado divulgado pelo casal, Ed Motta, o empresário Diogo Coutinho do Couto e um terceiro homem teriam protagonizado cenas de agressividade, intimidação e violência contra funcionários e clientes após a recusa do restaurante em liberar a cortesia da taxa de rolha. Os vídeos mostram Ed dando uma cadeirada à lá Datena.

Ele admite o descontrole, mas nega ter atacado qualquer funcionário. “Fiquei irritado e me descontrolei. Eu estava bêbado e joguei uma cadeira no chão, mas jamais em direção a alguém. As câmeras podem provar isso”, afirmou o cantor ao jornal Extra.

De acordo com o relato do restaurante, a situação escalou depois que o músico esbarrou numa cliente de outra mesa, derrubando objetos. Motta diz que já havia deixado o local quando a confusão entre os grupos começou e afirma que amigos seus foram alvo de ofensas homofóbicas e xenofóbicas.

Mas o episódio ultrapassa a mera discussão sobre quem insultou quem.

Ed Motta encarna perfeitamente o personagem do enochato clássico. Aquele sujeito que transforma qualquer jantar em aula compulsória de degustação. O tipo que gira a taça solenemente, aspira o vinho como se estivesse avaliando um perfume renascentista e anuncia notas imaginárias de “raposa molhada” e “cascalho úmido após uma chuva de verão”.

Ed posta vídeos em suas redes falando disso. Num deles, discorre sobre a superioridade dos paulistas sobre os cariocas nessa arte. Frequentemente aparece alcoolizado. O próprio Motta ajudou a construir essa caricatura. Disse, por exemplo, que não bebe “imitação chilena” e que preferia tomar água a consumir vinho “custo-benefício”.

Sua obsessão começou nos anos 1990, depois do casamento com Edna. Até então, segundo contou a uma revista especializada, ele praticamente não consumia álcool. A paixão cresceu quando morou em Nova York, frequentando lojas de vinhos franceses e mergulhando em publicações como a Wine Spectator, que mais tarde passou a desprezar por considerar “infantilizado” o gosto americano.

Vieram então as adegas climatizadas, os rótulos caríssimos e o discurso esnobe típico do universo da enocultura. Só que existe um detalhe frequentemente ignorado quando o álcool vem servido em taças de cristal: continua sendo álcool.

Quando um sujeito admite publicamente que perdeu o controle, ficou bêbado, destruiu mobiliário e protagonizou um barraco num restaurante porque contrariaram seus privilégios de cliente antigo, talvez o debate deixe de ser sobre vinho e passe a ser sobre compulsão, arrogância e alcoolismo socialmente aceito.

No Brasil, o bêbado rico costuma ganhar um tratamento romântico. O sujeito “difícil”, “temperamental”, “intenso”, “boêmio”. Se estivesse derrubando cadeiras depois de doses de cachaça num boteco suburbano, dificilmente seria tratado como excêntrico sofisticado.

O caso de Ed Motta mostra justamente isso: por trás de muito enochato existe apenas um alcoólatra com vocabulário rebuscado, acesso a garrafas caras e que precisa de ajuda.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.