O caso Erika Januza e a indústria da mulher traída. Por Nathalí

Atualizado em 30 de julho de 2026 às 12:31
Arlindinho e Erika Januza antes da traição midiática

Vou começar com uma frase contestável, no mínimo, pela qual me responsabilizo completamente: a atriz Erika Januza e o sambista Arlindinho vão reatar o relacionamento, e não precisa ser nenhuma Marcia Sensitiva pra afirmar isso.

A cantora Iza, por exemplo, retomou o relacionamento com Yuri Lima, pai de sua filha, depois de uma traição amplamente explorada pela mídia, com direito a pronunciamentos nas redes sociais, lágrimas e dezenas de reportagens.

O que eu tenho a ver com a vida íntima dos outros?

Absolutamente nada.

O problema é que ela deixou de ser íntima. É empurrada diariamente para o público em uma mercantilização da vida privada que encontra nas redes sociais seu ambiente ideal.

Érika Januza ACABANDO com o Arlindinho Cruz ao vivo. #SaiaJusta pic.twitter.com/SAx2X0xXxH

É sempre assim: a mulher é traída, usa a imagem de injustiçada pra dar um up na fama (e frequentemente na própria carreira), espera a poeira baixar e volta pro Jurandir.

Foi assim com Iza, Luíza Sonza, Bruna Biancardi – que já pode pedir música no Fantástico -, até com Preta Gil, e está sendo com Erika Januza.

Todas elas transformaram chifre em grana. Não estão erradas, mas é importante perguntar: por que traição dá tanto engajamento?

Porque vivemos na sociedade da transparência, em que tudo precisa ser exaustivamente mostrado em um ser-visto-ininterrupto.

Em outras palavras: pessoas que prezam pela fama precisam frequentemente vender suas vidas íntimas, se expor, usar uma coleira com o nome do namorado (alô, Virgínia) e criar polêmicas em torno de si mesmas.

Tudo pelo hype.

Outra pergunta impera diante do absurdo: é mesmo necessário expor uma traição na mídia sempre? O fato de serem famosas lhes obriga a se humilharem nas redes sociais, sendo acolhidas apenas pelas “sororosas”, e ridicularizadas por todo o resto?

E por que os homens não precisam disso? Estão sempre ocupados demais com suas carreiras para posarem de cornos por quinze minutos de fama? Não precisam porque a mídia não lhes confere um lugar de vítima, é sempre um lugar de força.

A mulher traída é abraçada por outras mulheres que fazem parte da novela: comentam posts de superação e choram na TV.

Uma sororidade que, perdoem, nunca foi tão falsa, porquanto usada, hoje, só em nome dos likes.

Se essas mulheres tivessem real sororidade, em vez de participarem do circo, pegariam a coleguinha pelo braço e diriam: amiga, pare.

Ver repercutirem as traições a mulheres mais do que suas carreiras, seus trabalhos artísticos, é triste para qualquer um que preze pela arte (e não pela fama).

Ninguém escolhe ser traída – só às vezes – mas elas escolhem surfar na crista da onda e lucrar com a espetacularização de suas vidas, valendo-se quase sempre da posição de vítima para enfim serem vistas.

É triste, mas rentável. Eu só queria que meu par de chifres valesse dinheiro.

Nathalí Macedo
Nathalí Macedo, escritora e colunista baiana com 15 anos de experiência e 3 livros publicados: As mulheres que possuo (2014), Ser adulta e outras banalidades (2017) e A tragédia política como entretenimento (2023). Doutora em crítica cultural. Escreve, pinta e borda.