O complexo de vira-latas nos impede de viver em cidades com trânsito menos caótico

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Sabem como se chama a companhia de engenharia de trânsito nos EUA?

Departamento de Tráfego e Estacionamento.

Na pátria do automóvel eles nunca tiveram dúvida de que trânsito estacionamento são duas faces da mesma moeda, tão complementares quanto inspirar e expirar, sístole e diástole.

Um não pode viver sem o outro.

Ainda assim, na congestionada São Paulo, a eliminação de vagas de estacionamento ainda provoca protestos. Sobretudo de jornais – como o Estadão – que têm no mercado automobilístico uma de suas derradeiras fontes de receita.

Se o estacionamento representa a capacidade de manter os veículos parados, enquanto o tráfego é a de fazê-los andar, fica claro que o espaço determina as capacidades de ambos. E espaço é cada vez mais raro e caro em São Paulo.

Para abrir mais espaço para o transporte coletivo – numa cidade com uma rede de metrô pequena e ainda em construção – o prefeito Fernando Haddad teve que fazer o mesmo que seus colegas de Nova York, Londres, Paris e Amsterdã fizeram: reduzir o espaço de circulação e estacionamento de automóveis.

O complexo brasileiro de vira-latas permanece ainda uma incógnita. Ao mesmo tempo que nossos cada vez mais frequentes turistas voltam encantados de suas visitas ao primeiro mundo, recusam-se a fazer aqui o que admiram lá fora.

Separar e reciclar o lixo é outro bom exemplo. Até hoje as cidades brasileiras foram incapazes de implantar coletas de lixo limpas e eficientes. A maior fonte de sujeira das cidades é a precária e antiquada coleta do lixo em sacos espalhados pelo chão e recolhidos manualmente um a um. Um trabalho degradante e ineficiente.

A razão é simples de entender. Para ter cidades limpas como as suíças é preciso limpar e separar embalagens, latas e garrafas. Estacioná-las dentro de casa e depois levar a um ponto adequado de coleta instalado perto de casa. Isso é simples, mas dá trabalho. Nossa herança escravocrata ainda prefere jogar tudo dentro de um saco e depositar na rua, até que o lixeiro – ou a chuva – leve tudo embora para os lixões – ou para os rios..

A casa grande não consegue se libertar da senzala.

Algo muito semelhante ocorre com o estacionamento de veículos: um entope as ruas e o outro as galerias de águas pluviais.

A solução de ambos os problemas, portanto, é parecida. Precisamos de mais espaço para estacionar o lixo e menos para os automóveis. No lugar deles teremos onde implantar caçambas de lixos sólidos e orgânicos e ciclovias, que irão retirar carros das ruas e oferecer mais espaço para os próprios veículos em movimento. Menos carros parados são mais carros andando.

Essa é uma decisão que São Paulo vem protelando há anos, desde que a taxa do lixo, implantada pela ex-prefeita Marta Suplicy, foi suspensa por José Serra. Se a taxa não era a solução do problema, ele deveria ter proposto outra, mas deixou tudo como estava e a situação só se agravou de lá pra cá.

Abrir espaço para bicicletas e ônibus em São Paulo, reduzindo o estacionamento de veículos e ampliando os equipamentos de coleta de lixo não vai ser tarefa fácil para nenhum prefeito, de nenhum partido. A maioria desistiu antes de começar, por que sabe com quem está mexendo.

A lei da cidade limpa só limpou as fachadas e a publicidade. Ao contrário da redução do estacionamento, teve amplo apoio da imprensa, que compete pelo mesmo mercado também nesse caso. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

O complexo de vira-latas nos impede até mesmo de viver em cidades limpas e sustentáveis.

Faz sentido.

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