O crescimento da influência de Marco Rubio em Washington e o risco inflacionário. Por Luis F. Miguel

Atualizado em 16 de março de 2026 às 9:42
Marco Rúbio, secretário de Estado dos EUA. Foto: reprodução

Toda semana, eu publico uma análise da conjuntura focada no cenário eleitoral: a contagem regressiva para 4 de outubro de 2026.

O ataque de Donald Trump ao Irã continua, sem prazo para terminar. Ao que parece, o presidente estadunidense iniciou uma guerra sem objetivos definidos, motivado pela vontade de demonstrar poderio e pela vaga esperança de repetir sua façanha na Venezuela.

Em vez de sequestrar Khamenei, como fez com Maduro, optou por matá-lo, algo que ofende o direito internacional em tantos níveis que é difícil até comentar: sonhava que o regime estaria disposto a negociar sua continuidade em troca do alinhamento com Washington (e Telavive). O desconhecimento que isto revela da situação do Irã, da natureza da República Islâmica e da conjuntura do Oriente Médio não surpreende. Afinal, neste segundo mandato, ele simplesmente afastou os diplomatas e os especialistas das negociações com Teerã, colocando em seu lugar um corretor de imóveis e seu próprio genro.

Agora, ao que parece, ele está atordoado com o desenrolar dos acontecimentos. A Folha de S. Paulo, que ainda consegue surpreender, publicou reportagem sob o título “Casa Branca não esperava resposta agressiva do regime iraniano à guerra”. Caramba, eles recebem uma chuva de mísseis e é a resposta que é “agressiva”?

Como são agressivos esses iranianos!

Segundo os indícios recolhidos por quem acompanha a política no Império, Trump está esperando uma oportunidade para se proclamar vencedor e encerrar os ataques – sem reconhecer que foi um instrumento da política de Israel e sem assumir novamente a carapuça do TACO (sigla em inglês para “Trump sempre amarela”). A maior potência mundial está à mercê da masculinidade frágil de seu chefe. O problema é que ninguém sabe quando esta oportunidade vai surgir.

No Brasil, a direita tosca de sempre comemorou a guerra. “Ninguém chora pelo Irã”, escreveu o Estadão em editorial, enquanto o mundo via meninas iranianas sendo mortas pelos mísseis estadunidenses numa escola – quase 170 crianças em um único ataque. Mas o universo mental da direita, aqui indo dos editorialistas do jornal da família Mesquita, sempre louvados por sua sofisticação e estilo, aos apalermados que rezam para pneus, não consegue diferenciar entre a oposição a um regime ditatorial e uma agressão externa, não se pergunta que mundo é esse em que uma potência se dá o direito de matar líderes e invadir outros países ao arrepio do direito internacional e da ONU, não se preocupa com o que emergirá depois da guerra.

O regime teocrático dos aiatolás é abominável. A repressão sangrenta aos protestos populares é execrável. A esquerda brasileira devia ser capaz de assumir estas afirmações com todas as letras – e expressar a esperança de que o povo iraniano consiga sua liberdade. Nada disso justifica a agressão estadunidense ou diminui a solidariedade ao Irã. É mesmo possível condenar a natureza autoritária do regime e louvar a resistência aos Estados Unidos, que pode até contribuir para refrear novas iniciativas imperialistas de Donald Trump (na suposição de que o belzebu alaranjado seja capaz de aprender com a experiência).

A primeira constatação que salta não só desta guerra contra o Irã, mas de toda a movimentação deste segundo governo Trump em política externa, é que a China não cumpre o papel que foi da União Soviética no cenário internacional, seja por incapacidade ou por cálculo. Não opõe uma resistência aos avanços dos Estados Unidos, não protege os seus aliados, não contribui para gerar um equilíbrio político-militar global. Seria possível discutir as razões deste comportamento – a ausência de um sentimento internacionalista, que se manifesta desde a época de Mao; a prioridade condedida ao front interno de própria transformação em potência econômica; a mítica fixação chinesa na “longa duração”. Mas o fato é que Trump se sente bem livre para agir como lhe dá na telha.

Para o Brasil (e para as eleições de outubro), a guerra carrega consequências importantes.

Um aspecto é que a agressão ao Irã sinaliza o fortalecimento do secretario de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, no governo Trump. O mais belicoso dos integrantes da administração estadunidense é também o que mais atenção concede à América Latina e o mais próximo da família Bolsonaro. Ha o risco, portanto, de um envolvimento maior de Washington nas eleições brasileiras. O imbroglio envolvendo Darren Beattie, conselheiro do governo americano que queria visitar Bolsonaro na cadeia e acabou tendo visto de entrada negado, é significativo.

É claro que, dado comportamento errático do presidente dos Estados Unidos, a situação pode mudar a qualquer momento. Além disso, seus problemas internos devem se tornar cada vez mais absorventes. A guerra ajuda, é bem verdade, a retirar os holofotes do caso Epstein, que se mostra cada vez mais tóxico para ele. Por outro lado, a agressão ao Irã foi mal vista por uma parcela amplamente majoritária da população do país. Nunca um início de guerra contou com apoio tão diminuto. A oposição a ela inclui não apenas democratas e independentes, mas muitos militantes trumpistas. Afinal, uma das promessas centrais no movimento MAGA, reafirmada vezes sem fim por Donald Trump quando candidato, era não envolver mais os Estados Unidos em conflitos externos. As críticas à guerra no Congresso partem não apenas dos democratas, mas também de muitas lideranças republicanas.

Trump sofre o risco do impeachment, está tendo reveses em muitas de suas políticas (o tarifaço foi barrado pela Suprema Corte, sua polícia anti-imigrantes foi exposta como assassina e teve que se retirar do Minnesota), corre o seríssimo risco de sofrer uma derrota maiúscula nas eleições de meio termo agora em novembro, que vão renovar um terço do Senado e toda a Câmara de Representantes. Diante disto, é improvável que Flávio Bolsonaro seja uma prioridade para ele. Ainda assim, o crescimento da influência de Rubio é mau sinal.

O impacto mais óbvio da guerra, porém, se dá nos preços. O custo do barril do petróleo já saltou nas últimas semanas e há o temor também de que faltem insumos cujo comércio é prejudicado pelo fechamento do estreito de Ormuz, em particular fertilizantes agrícolas. A dependência da agricultura brasileira de fornecedores internacionais, sobretudo russos. é gritante (somos o maior importador mundial, trazendo de fora cerca de 85% do que é usado aqui) e tem causado sobressaltos constantes – durante a pandemia, com a invasão da Ucrânia etc. Dólar alto e juros altos (determinados pelo Banco Central “independente” de Galípolo, em nada diverso daquele de Roberto Campos Neto) completam o cenário sombrio.

Tsukioka Yoshitoshi: Batalha entre bombeiros e lutadores de sumô (1886)

Para o consumidor brasileiro, que é também o eleitor, é o preço do combustível que afeta de forma mais imediata a sua vida. Uma alta inflacionária puxada pelo diesel e pela gasolina, para uma população que ainda sofre com os efeitos da carestia da última década, coloca o governo em situação muito difícil.

O governo tomou uma medida correta, zerando o imposto sobre o diesel e taxando as importações. Mas ainda é pouco. Cabe a Lula cumprir a sua promessa e fazer a Petrobrás realmente desatrelar o preço cobrado internamente das flutuações do mercado externo, encerrando a política de paridade com o preço internacional não apenas na retórica, mas na prática. Os custos internos de extração e refino são muito menores, logo não faz sentido fazer o consumidor brasileiro pagar mais. Quem quiser se aprofundar no assunto, pode buscar os artigos do meu xará Felipe Coutinho, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás.

É verdade que a privatização da BR Distribuidora, durante o governo Guedes, reduziu a capacidade estatal de definir o preço para o consumidor final, na bomba de combustíveis – e a margem de lucro dos intermediários cresceu muito. Mas se justificam medidas de controle de preços, para evitar abusos.

Não vão faltar comentaristas econômicos e editoriais dos jornalões falando que é “populismo”, “oportunismo eleitoral”, assim por diante. A Folha deu manchete nesse sentido, quando saiu a decisão sobre o diesel. Um de seus colunistas escreveu artigo hilário, dizendo que é necessário deixar os preços subirem para que haja um efeito pedagógico e as pessoas percebam que é preciso reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. O terraplanismo de mercado nunca morre…

Controlar o preço da gasolina e do diesel não é casuísmo, nem populismo. Sim, uma alta inflacionária teria grave impacto nas possibilidades da reeleição de Lula (e impedir o retorno do bolsonarismo não é uma preocupação conjuntural ou secundária). Mas, para muito além da questão eleitoral, impedir a alta dos combustíveis é uma ação necessária e responsável, em defesa da economia nacional e do poder de compra da classe trabalhadora.

(No front interno, o caso Master é outro fator complicador para a eleição. Mas este ponto eu desenvolvo em um próximo texto.)

Luís Felipe Miguel
Professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Demodê - Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades.