O culpado pelo aumento das mortes no trânsito é João Doria, com seu “acelera, São Paulo”. Por Daniel Trevisan

Doria e o trânsito

A Prefeitura de São Paulo vai gastar R$ 20 milhões para fazer uma campanha destinada à redução das mortes no trânsito. Dados da empresa que administra o tráfego na cidade, a CET,  divulgados recentemente, revelam que houve 849 mortes no trânsito em 2018 contra 797 em 2017, um aumento de 6,5%.

Com isso, também subiu o índice de mortalidade por 100 mil habitantes, que foi de 6,56 em 2017 para 6,95 em 2018 – alta de 5,9%.

Em 2018, os motociclistas passaram a ser as maiores vítimas fatais de acidentes de trânsito. Foram 366 mortes de motociclistas contra 311 em 2017. Os pedestres também morreram mais: o número subiu de 331, em 2017, para 349, no último ano.

Quando se fala em elevação de mortes não trânsito, impossível não se lembrar que uma das primeiras medidas do atual governo, iniciado por João Doria, foi retirar radares de velocidade e elevar o limite de velocidade nas Marginais e em outras avenidas.

Agora, a prefeitura quer “conscientizar” os motoristas sobre a importância de respeitar os limites de velocidade e as leis de trânsito.

Ninguém torce para que a campanha não dê resultado, mas a verdade é que, em se tratando de trânsito, a única medida eficaz é aquela que atinge o bolso do infrator.

Não é só no Brasil.

Em Nova York, há um programa rigoroso de multas no sentido de reduzir as mortes no trânsito.

A velocidade máxima permitida lá é equivalente a que Fernando Haddad estabeleceu em São Paulo, quando houve redução das mortes no trânsito.

Em todas as ruas da cidade, a velocidade máxima permitida é de 25 milhas, ou seja, 40 quilômetros por hora. A redução no número de mortes foi expressiva: desde 2013, quando teve início o programa, caiu 30%.

Nova York quer chegar a 2024 com índice zero de vítimas fatais nas ruas.

Quando Doria assumiu, a cidade foi na contramão, como se vê agora, com os dados referentes a 2018. Por isso, a campanha tem tudo para se tornar um ralo de dinheiro público.

Na década de 90, houve redução expressiva no número de mortes em acidentes em razão de uma medida simples: o uso do cinto de segurança.

Mas não se alcançou o resultado com campanha, mas com multa. Era inédito e forçou até uma mudança no Código Brasileiro de Trânsito.

Todos começaram a usar o cinto, o que antes era raro.

No caso da velocidade, a multa sempre existiu. Mas os limites foram alargados e a fiscalização por radar, móvel ou fixo, afrouxada. 

A oposição às medidas de pacificação do trânsito implementadas por Haddad foi gigantesca, com apoio da velha imprensa — como sempre —, diferentemente do que aconteceu em relação ao cinto.

Doria se elegeu com o slogan “Acelera, São Paulo”, uma mensagem que agradava aqueles que xingavam Haddad pela redução dos limites de velocidade.

Seria exagero imaginar que há um componente de classe nessas duas situações?

Hoje, quem mais morre nesse trânsito selvagem da cidade de São Paulo é o pobre, seja na condição de pedestre ou motociclista.

No caso do cinto, o uso obrigatório, com o risco de multa em caso de descumprimento, poupou a vida dos que usavam o automóvel, ou seja, quem tem mais poder aquisitivo — o pobre vai a pé, de bicicleta, de ônibus ou de 125.

O trânsito de São Paulo é, portanto, um bom espelho da mentalidade primitiva que predomina na sociedade, sobretudo a partir da influência do andar de cima, ocupada por gente de um individualismo burro: quem não preferiria viver numa cidade com trânsito civilizado como Nova York?

Os bacanas, no entanto, elogiam Nova York, mas pelo comportamento em terra nativa merecem Nova Deli. Acham que estão protegidos.

Ledo engano.

Todos somos pedestres em algum momento — é verdade que a classe média e os ricos, de maneira geral, bem menos.