“O dedo tucano é visível na TV Cultura”: o ex-ombudsman da emissora fala ao DCM

Ernesto Rodrigues
Ernesto Rodrigues

 

O jornalista Ernesto Rodrigues foi chamado à TV Cultura em 2008 para exercer uma função inédita na televisão brasileira: a de ombudsman. Era pago para assistir à programação e usar seu melhor julgamento para criticar o que via.

Mineiro, Rodrigues foi editor do Jornal Nacional e do Jornal da Globo, diretor de programas do Globo Repórter, chefe do escritório da TV Globo em Londres e chefe de redação da Globo em São Paulo.

Nos dois anos em que escreveu sua coluna, Rodrigues considera que seus textos, cuja função era contribuir para um debate que melhorasse a programação, foram condenados a uma “virtual clandestinidade”.

Para o autor, a desatenção ao seu trabalho foi a extensão de uma mistura de “soberba elitista com burocracia em boa parte dos funcionários, cuja maioria não tomava conhecimento da existência do ombudsman e nem se achava no dever de responder às críticas e análises do ombudsman sobre os programas que fazia.”

Em 2010, fim de seu mandato, Rodrigues recusou o convite de João Sayad, então presidente da fundação Padre Anchieta, a continuar no cargo.

Chegamos a 2015, ano em Rodrigues publica um livro cujo teor provocativo começa no título: “O Traço da Cultura – O Desafio de ser Ombudsman da TV Cultura, a emissora mais festejada e menos assistida do Brasil” (Editora Reflexão, 336 pág.).

“Traço” se refere a programas de TV que não registram mais que meio ponto de audiência no Ibope. Como sabemos, um ponto equivale a 65 mil domicílios em São Paulo. Em suas palavras, “audiência” é um palavrão dentro dos muros da Cultura.  O livro de Rodrigues, um recorte no passado recente da emissora de TV bancada pelos contribuintes do estado de São Paulo, é uma análise explosiva da caixa-preta de um avião que nunca levanta voo mas que, ainda assim, consegue produzir uma tragédia a cada vez que decide o que vai ser exibido.

Não há dentro ou fora da TV Cultura alguém que queira se dar ao trabalho de assistir ou julgar a qualidade do que vai ao ar? 

No período em que fui ombudsman, aconteciam episódios escandalosos de desleixo com o que ia ao ar. A política de chamadas, algo absolutamente vital em televisão, era sofrível. A grade era montada de uma forma burocrática e totalmente insensível aos dias, públicos e horários potencialmente mais interessantes. E essa situação tinha um subproduto perverso que é o seguinte: se você não assiste, você não se irrita com a chatice.

E aí fica fácil elogiar e defender uma programação cheia de boas intenções, em termos culturais e educativos, mas quase impossível de se assistir. E aí vem outro subproduto igualmente perverso: ao elogiar, sem assistir, programas culturais chatos, mal-editados, pouco atraentes e conceituados de forma elitista e com baixa audiência, você só dificulta a existência e a busca de uma programação que seja ao mesmo tempo de qualidade e competitiva. Fica o binômio mortal da baixaria versus a chatice. E todo mundo sai perdendo.

Existe um acordo de mediocridade na TV Cultura?

Conheci e troquei emails com pessoas muito sérias, dedicadas e bem-intencionadas. O problema era a estrutura burocratizada, a inexistência de cobrança de resultados de audiência, um biombo em forma de palavrão para muita gente na emissora, a programação que emanava das capitanias hereditárias alojadas no conselho da FPA e as patotas que se dedicavam a fazer programas sem se preocupar com a relevância ou com a vocação televisiva dos conteúdos. Todo mundo, claro, cheio de boas intenções e se apresentando como alternativa à baixaria das tvs comerciais.

Muito se acusa a TV Cultura de ser um “ninho de tucanos” em São Paulo. Natural, uma vez que o partido está no poder há tanto tempo. Você teve a impressão de trabalhar num lugar com inclinações políticas claras?

Percebi alguns poucos momentos em que o dedo do então governador José Serra surgiu na programação. Um deles foi uma fala dele de quase 3 minutos sobre a greve dos policiais civis, num dia em que a própria greve mereceu uma reportagem bem menor. Mas não caracterizaria aquele período como um ambiente editorialmente totalmente subordinado ao tucanato. O dedo tucano é bem mais visível no pouco que eu assisto na TV Cultura atual. A começar pelos convidados do Roda Viva.

Você cunhou, no livro, a expressão “parque de diversões da elite” para se referir à dinâmica de produção e exibição de conteúdo na TV Cultura.

Quando eu usei o termo “parque de diversões da elite”, eu me referi à TV cultura como um brinquedo subsidiado pelo estado no qual a classe artística e cultural de São Paulo, quase toda ela pertencente à elite da cidade, cheia de boas intenções, muito paternalismo e um imenso preconceito contra a própria televisão, faz todo tipo de experimentação, sem a menor preocupação com o fato de que a emissora, por ser pública, deve, por estatuto, servir e conquistar o público que a sustenta, ajudando-o a exercer a cidadania.  E não deixar esse público engordar ainda mais a receita das TVs comerciais, aprofundando ainda mais o fosso entre quem faz e quem deveria assistir os programas da TV Cultura.

O que tem a dizer sobre o Roda Viva exibido atualmente?

O Roda Viva de hoje tem um viés político e editorial muito influenciado pelo clima de guerra política e social no qual a mídia brasileira em geral se deixou envolver de forma na minha opinião equivocada, pobre, imediatista e perigosa. Mas o programa é maior e mais importante do que este momento que a mídia está atravessando. O Roda Viva tem o que pode existir de mais precioso em televisão: vocação, identidade, história e público cativo.

Apenas preocupar-se com a audiência poderia trazer mais qualidade à programação da Cultura? Ou o buraco é mais embaixo?

Recusar a busca de audiência em nome de um intangível e misterioso valor cultural, muitas vezes, é disfarce para a incompetência ou para a preguiça de fazer televisão de qualidade, que dá muito, muito trabalho. E televisão é um veículo  que não existe para pequenos grupos. Ela só faz sentido, econômico, inclusive, para multidões.

As grandes multidões da TV aberta e as pequenas multidões da TV por assinatura. Mas sempre multidões. Televisão pública sem audiência é inutilidade e desperdício para o estado. Primeiro, o cidadão. Depois o artista. Na TV Cultura, no meu mandato de ombudsman, era o contrário.

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