O Deus de Michelle não tem ajudado a extrema direita. Por Moisés Mendes

Atualizado em 26 de janeiro de 2026 às 6:52
Manifestante caminhando na chuva durante a caminhada golpista de Nikolas Ferreira. Foto: Vinícius Schmidt/Metrópoles

Fracassarão todos os que tentarem abordar as consequências do raio na aglomeração em Brasília, se usarem as ferramentas de alguma racionalidade.

Porque nada do que é racional funciona para a extrema direita que tentou contatos com marcianos para aplicar o golpe e cantou o hino para pneus.

Dizem, como crítica mais previsível, que Nikolas Ferreira, se fosse de fato um líder, teria evitado um ajuntamento em meio a uma chuvarada.

Que autoridades da segurança deveriam ter interditado o local e determinado, e não apenas orientado, que os manifestantes se afastassem dos equipamentos que contribuíram para a formação do raio.

Nada disso terá repercussão alguma entre o bolsonarismo. Ninguém da extrema direita irá admitir que o comício deveria ter sido dispersado.

Ninguém irá atribuir responsabilidade alguma a Nikolas e aos organizadores da caminhada.

Também não funcionam entre eles as abordagens de parte das esquerdas, como ironia religiosa, de que o raio foi um aviso divino ao fascismo sem limites.

Eles entenderão que o acontecido foi sim uma mensagem a fiéis dedicados à defesa do líder preso, mas para que perseverem, mesmo com raios e trovoadas.

Não é preciso se esforçar muito para prever que o bolsonarismo dará ao episódio tons de dramaticidade bíblica.

Pouco antes da descarga elétrica, Michelle Bolsonaro havia publicado essa mensagem de fé nas redes sociais: “É um evento pacífico, ordeiro, conduzido por Deus”.

Os bolsonaristas, os que estavam em Brasília e os que acompanhavam de longe, têm certeza de que o significado transcendente do episódio vai favorecê-los sempre.

É possível até que alguns vejam Nikolas com o poder de atrair raios, para testar a fé dos seus seguidores, que caminharam mais de 200 quilômetros (enquanto ele parava em hotéis) até a provação imposta por Deus.

Deus não foi introduzido por Michelle na caminhada. Ele estava com os caminhantes desde o começo. Deus está sempre com a extrema direita, mas vem falhando em eleições, golpes e romarias em defesa de anistias.

Um raio, nessas situações e com esses personagens como pastores de rebanhos, nem sempre será apenas um raio. Ou como desafiou o jornalista Leandro Fortes em seu perfil no Facebook: “Expliquem essa, ateus”.

(A foto é de Vinicius Schmidt, do Metrópoles)

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/