O dia em que Barroso falou pelos brasileiros e esmagou Gilmar. Por Kiko Nogueira

 

O ministro Luís Roberto Barroso, como todos os seus colegas de STF, é uma decepção constante — mas, neste 26 de outubro de 2017, ele transcendeu a si mesmo.

A carraspana que aplicou em Gilmar Mendes é histórica.

Gilmar é o valentão daquele quintal, eternamente à vontade para barbarizar, com a conivência dos demais ministros.

Hoje ele encontrou um Barroso disposto a ir para a briga — e, num sentido mais amplo, defender a democracia.

A reação enérgica de Barroso deixou o amigo de Aécio sem ação. Estava certo de que, como de costume, faria mais um de seus monólogos que enlameiam a noção de Justiça.

A discussão começou quando Mendes acusou Barroso de soltar José Dirceu.

— Porque recebeu indulto da presidente da República, rebateu Barroso.

— Não, não. Vossa excelência julgou os embargos infringentes, disse o outro.

— Absolutamente. Isso é mentira. Aliás, vossa excelência normalmente não trabalha com a verdade. Então gostaria de dizer que José Dirceu foi solto por indulto da presidente da República.

— Vossa excelência julgou.

— E vossa excelência está fazendo um comício que nada tem que ver com extinção de tribunal de contas do Ceará (pauta da sessão).

— Tem, sim.

E então Barroso colocou o adversário nas cordas:

— Vossa Excelência está queixoso porque perdeu o caso dos precatórios e está ocupando o tempo do plenário com um assunto que não é pertinente para destilar esse ódio constante que vossa excelência tem, e agora o dirige contra o Rio. Vossa excelência devia ouvir a última música do Chico Buarque: “A raiva é filha do medo e mãe da covardia”. Vossa excelência fica destilando ódio o tempo inteiro. Não julga, não fala coisas racionais, articuladas, sempre fala coisa contra alguém, está sempre com ódio de alguém, está sempre com raiva de alguém. Use um argumento, o mérito do argumento.

Gilmar gaguejou qualquer coisa. O espancamento prosseguiu:

— José Dirceu permaneceu preso sob minha jurisdição, inclusive revoguei a prisão domiciliar porque achei impróprio, e concedi a ele indulto com base no decreto da presidente da República porque ninguém é melhor nem pior do que ninguém. E portanto apliquei a ele a lei que vale para todo mundo. Quem decidiu foi o Supremo. Aliás, não fui eu, porque o Supremo tem 11 ministros. E a maioria entendeu que não havia o crime. E depois ele cumpriu a pena e só foi solto por indulto, e mesmo assim permaneceu preso, porque estava preso por determinação da 13ª Vara Criminal de Curitiba. E agora só está solto porque a Segunda Turma determinou que ele fosse solto. Portanto, não transfira para mim esta parceria que vossa excelência tem com a leniência em relação à criminalidade do colarinho branco.

Sem resposta, acuado depois de tomar uma sova moral, socorrido por uma maternal Cármen Lúcia, apequenado — aquele é o tamanho verdadeiro de Gilmar.

O Barroso que surgiu no embate é o que gostaríamos que ele fosse — e, talvez, ele também. 

Pena que não exista na vida real.

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