O dia em que fui fechado de bike e o delegado se recusou a fazer o boletim de ocorrência

Ser ciclicista em São Paulo não é fácil, você sabe.

Apesar da consciência cada vez maior da necessidade de um novo modelo de transporte urbano, a ignorância impera.

Há algum tempo comecei a filmar o meu trajeto por questão de segurança e também para registrar alguns absurdos que acontecem.

Eu estava indo para o trabalho de bicicleta e, ao atravessar a ponte Eusébio Matoso, quase fui atropelado por um carro que me fechou.

A descrição do que aconteceu deixo para o vídeo que aqui publico.

Mas o pior foi a minha tentativa de registrar um B.O.

Acreditei que se eu registrasse um Boletim de Ocorrência estaria agindo da melhor maneira para evitar que este motorista faça com outro ciclista algo tão estúpido como fez comigo.

Consultei uma advogada e pesquisei na internet casos semelhantes. Deparei com um texto no site vadebike.org em que eles aconselham ir à delegacia, já que é um crime conforme o art. 132 do Código Penal: “expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente”.

Fui para o 51.º DP (Butantã). Cheguei às 11 horas e havia uma 5 pessoas sendo atendidas por dois policias. O funcionário atrás do balcão, bem rude, me perguntou o que eu queria.

Eu disse que sofri um fechada de bicicleta por uma motorista e queria registrar uma ocorrência.

Nessa hora, um senhor que estava sentado ao lado, que depois eu soube se tratar do  delegado de plantão, disse que era acidente de trânsito sem vítima e eu teria que me dirigir à Polícia Militar ao lado.

Então falei que não era crime de trânsito e sim tentativa de homicídio. Ele me  olhou debochadamente.

Expliquei novamente que queria registrar a ocorrência conforme o art.132 do Código Penal e disse que eu tinha filmado tudo.

Transtornado, ele olhou para mim e ordenou que eu pegasse a fila.

Depois, falou alto novamente:

— Imagina se todo ciclista quiser registrar ocorrência que levou uma fechada. A fila estaria enorme.

Uma senhora à minha frente me contou que a filha dela tinha sofrido um acidente de bicicleta. Bateu a cabeça. Me cumprimentou por estar na delegacia, já que a filha não teve coragem.

Passados alguns minutos, o delegado gritou detrás de sua mesa:

— Ô, rapaz! Eu não vou registrar seu B.O.

Tentei argumentar. Se ele visse o vídeo, eu respondi, ia entender por que eu estava ali.

Ele não deu a mínima e se negou a me atender.

Então perguntei para ele o seu nome. Ele apontou para a placa que estava atrás de sua cabeça: Roberto dos Santos Moraes.

Eu peguei meu caderninho e lhe disse:

— Sabe que o senhor está cometendo crime de prevaricação, artigo 319 do Código Penal, ao negar meu registro da ocorrência.

— Se você achar ruim, pode procurar a corregedoria da Polícia Civil.

Terminei de anotar o nome e estava saindo. Dei uma olhada para trás para ver a placa novamente. Ele deu um berro:

— Quer meu R.G.?

— Não, doutor, eu só queria registrar um B.O.

Fui para o trabalho lembrando que fazer algo correto não é tão simples como eu pensava.