O dia em que Mandetta foi paparicado. Por Moisés Mendes

Mandetta sendo paparicado. Foto: Reprodução

As quatro fotos acima foram tiradas do vídeo da entrevista coletiva de hoje à tarde, a primeira depois da divulgação da pesquisa do Datafolha com aprovação de 76% ao desempenho do Ministério da Saúde.

As fotos têm, pela ordem, os ministros Wagner de Campos Rosário, da Controladoria-Geral da União; Braga Netto, da Casa Civil; e Luis Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo.

Na quarta foto, está assinalado o ministro Jorge Oliveira, da Secretaria-Geral.

As cenas seriam comuns em tempos normais. Mas não em tempos de pandemia, em que os brasileiros são ameaçados por um vírus e pelo surto do presidente da República.

As cenas são do final da coletiva, quando todos os ministros se dirigem a Luiz Henrique Mandetta. O ministro da Saúde ganha tapinhas nas costas de Braga Netto e Ramos, uma encostada de cotovelo, o cumprimento da moda, de Rosário, e no fim forma uma rodinha quando Oliveira se aproxima.

Mandetta, no centro das atenções, foi paparicado por todos eles. Os tapinhas nas costas foram dados por dois dos mais poderosos ministros do governo. Braga Netto é apresentado, como consenso, como o general que governa, enquanto Bolsonaro delira.

Os dois poderiam sair da sala discretamente, sem se aproximar de Mandetta, até para evitar aproximação com um ministro em conflito com o chefe. Mas fizeram questão de interagir com o ministro.

Os ministros fizeram um afago no colega transformado em alvo do presidente e de alguma forma afrontaram Bolsonaro.

A coletiva era a primeira aparição pública de Mandetta depois dos ataques de ontem à noite de Bolsonaro e da pesquisa arrasadora, em que o Ministério da Saúde tem mais do que o dobro de aprovação do presidente, com 76% contra 33%.

A Folha fez nessa pesquisa o que nunca havia feito. Em todas as entrevistas, sempre perguntou sobre a performance dos ministros. Desta vez, pesquisou o desempenho do ministério.

Assim, os 76% de apoio são à pasta, e não ao ministro. É um truque para que o nome de Mandetta não aparecesse na manchete do jornal.

Na coletiva, Mandetta fez o que vinha fazendo. Defendeu as restrições ao convívio social, que prefere não chamar de isolamento nem de quarentena, e reafirmou que as pessoas estão em primeiro lugar.

Voltou a cutucar Bolsonaro, agora ainda mais à vontade, e fez relatos sobre as providências tomadas, como um general em guerra, numa mesa com dois generais (Braga e Ramos) e um major da polícia militar (Oliveira).

Mandetta é da nova safra de coronéis do Cerrado, o mais vistoso de todos eles, o político na hora certa no que seria a hora errada, a pandemia que aterroriza o país.

O ministro acaba transformando tudo em lugar e hora certa, assumindo uma liderança que Bolsonaro refugou, por incompetência geral, por imbecilidade política e pela incapacidade de conter suas crueldades.