O dia em que nosso colunista tocou com Dave Brubeck

Atualizado em 12 de dezembro de 2012 às 0:22

Você deve estar sempre preparado para as oportunidades únicas que a vida pode talvez oferecer

Obrigado, Dave Brubeck

Conheci Dave Brubeck ainda adolescente ouvindo o álbum Time Further Out sem parar. Ali estava tudo o que eu desejava num disco de jazz: criatividade, sofisticação, bom humor. Eu viajava naquela capa cheia de números de Juan Miró e me sentia o rei dos cool cats.

Uma das músicas do disco era um desafio para bateristas em potencial: Unsquare Dance. Uma peça em 7/4 marcada por uma batida de palmas que o próprio compositor definia como “enganadoramente simples”, especialmente no final. Decidi que jamais erraria as palmas de Unsquare Dance. “Se um dia o Dave Brubeck me chamar para tocar com ele, eu não quero fazer feio” – era minha fantasia jazzística favorita de adolescente.

Corta para vinte anos depois. Estou no Rio de Janeiro com minha amiga Renata Azevedo. Brubeck vai tocar no Municipal. Compramos poltronas bem no centro da primeira fila, a 3 metros do piano.

Brubeck toca seus clássicos (Take FiveBlue Rondo a la TurkIt’s a Raggy Waltz, etc). Chega a hora de Unsquare Dance. Na banda não tem ninguém para bater palmas. É a minha fantasia, realizada. Eu, na primeira fila, marco o ritmo o mais alto possível, sem medo de ser inconveniente. Vou até o fim. Não erro. Após a última nota, em meio aos aplausos para o quarteto, Dave Brubeck olha para mim. E manda um “positivo” de aprovação.

Moral da história: esteja preparado. Para tudo. Obrigado, Mr Brubeck (1920-2012).