O dia em que professores transformaram o asfalto da Paulista em lousa. Por Gisele Mendes de Paula

Cena de um dia histórico na Paulista
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Cena de um dia histórico na Paulista

PUBLICADO NO FACEBOOK DA AUTORA

Aconteceu ali na rua. Quando eu a vi sacar sua poderosa arma e mostrar para os policiais porque estava lutando, voltei a ter esperança.

A manifestação começou às 14h. Só conseguimos chegar na Paulista às 17:40. Duas estações de metrô fechadas e a avenida ainda lotada.

Não achamos nossos amigos de luta, mal dava para caminhar.

Ficamos ali curtindo a balbúrdia dos grupos de estudantes com suas faixas, cartazes, megafones, dancinhas, palavras de ordem.

Às vezes vinham como alas, uma atrás da outra. De repente todos se misturavam e mães, pais, avós, jovens coroas pipocavam no meio da garotada.

Até chegarem os últimos blocos da passeata, a turma da dispersão que não queria que acabasse. E atrás da muvuca estudantil vieram os carros da polícia tática rangendo os dentes dos motores, piscando luzes vermelhas das sirenes, sem conseguir calar ninguém.

Não sei se os olhos dos policiais faiscavam de ódio ou de ‘carência filosófica’. Pareciam pitbulls enjaulados, prontos para morder aquela multidão indomável.

Foi então que eu vi a professora sacar do bolso sua arma: uma pequena caixa de giz. Ficou de joelhos diante das viaturas e fez do asfalto sua lousa, e da rua sua sala de aula.

Escrevia essas palavras de ordem feito poesia. E, naquele momento mágico, era como se aquela professora tivesse transformado as viaturas em carteiras escolares e os policiais em dedicados alunos, prestando atenção na lição que a mestra lhes dava.

As embreagens rosnaram, mas ela não se intimidou, apenas deu mais uns passos para tornar a se ajoelhar diante deles e continuar a escrever, com coragem, na altivez do sacerdócio de um professor sapiente, que ama sua profissão e nos ensina que o desenvolvimento de um país começa na escola, pela educação; que somente o conhecimento nos fará evoluir, fugir das trevas da mediocridade e da ignorância.

Sim, a aula foi na rua, baby. E a revolução está nas mãos dos estudantes.

 

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