O dia em que Regina Duarte enganou a imprensa numa coletiva sobre seu “medo”. Por José Cássio

Agora abraçada com o capitão

Num vídeo patético, com cara de sofreguidão, Regina Duarte, que agora integra oficialmente o governo Bolsonaro, pôs fogo no país em 2002.

Era o segundo turno das eleições presidenciais e a atriz disse que tinha medo de uma possível vitória do então candidato Lula contra José Serra, do PSDB.

Dizia temer que o país perdesse a estabilidade econômica que havia sido conquistada sob o governo de Fernando Henrique Cardoso.

“Eu tô com medo. Faz tempo que eu não tinha este sentimento. Porque o Brasil, nessa eleição, corre o risco de perder toda a estabilidade que foi conquistada. Eu sei que muita coisa não foi feita, mas também tem muita coisa boa para ser realizada. Não dá para ir tudo para a lata do lixo. Nós temos dois candidatos à presidência. Um eu conheço, que é o [José] Serra. É um homem do [remédio] genérico, do combate à Aids. O outro [Lula], eu achava que conhecia, mas eu já não o conheço mais. Tudo que ele dizia mudou muito e isso dá medo na gente. Outra coisa que dá medo é a volta da inflação desenfreada. Lembra? 80%, ao mês! O futuro presidente vai ter que enfrentar a pressão da política nacional e internacional. E vem muita pressão por aí. É por isso que eu vou votar no [José] Serra, que me dá segurança, porque dele eu sei o que esperar. Por isso, eu voto 45. Voto Serra, e voto sem medo”.

A repercussão foi bombástica, igual ou até maior do que a farsa do aborto criada por Collor contra Lula em 1989 – levou a enfermeira Miriam Cordeiro na TV para acusar o candidato do PT de ter tentado com que ela abortasse a filha de ambos.

Assustada com os desdobramentos da sua fala, Regina Duarte submergiu. Não se falou mais nela.

Lula tomou posse, o país seguiu sua rotina. Até o momento em que a ‘namoradinha do Brasil’ decidiu dar as caras novamente, coisa de quatro meses após a posse do novo governo.

Convocou uma coletiva para as 16h de uma quarta-feira no seu apartamento na região dos Jardins, em São Paulo.

A mídia entrou em ebulição. O que Regina teria a dizer? Qual a análise que fazia dos quatro primeiros meses do governo Lula? Ainda estava com medo?

A sala do apartamento ficou pequena para tanta gente. Um amontado de repórteres aguardavam ansiosos pela chegada da atriz.

E então ela surgiu.

– Regina, Regina, o que você está achando, ainda tem medo?

– Você falou com o Serra?

– Qual a sua avaliação desse início de gestão sob Lula?

Nenhuma dessas perguntas interessava à namoradinha do Brasil após 10 meses de silêncio.

O objetivo dela era outro: pedir apoio da imprensa para impedir a construção de um prédio que estava sendo erguido ao lado e ia tirar a ‘vista maravilhosa’ que ela tinha para a região da avenida Paulista.

– Gente, chamei vocês aqui porque preciso de ajuda. Olhem essa vista. Não é justo construírem um prédio em frente à janela da minha sala.

O clima foi azedando, os repórteres reclamaram que não estavam ali para discutir o planejamento urbano da cidade e sim repercutir o sentimento dela após ter sacudido o país com a história do medo.

Regina contra-atacou dizendo que estava abrindo sua casa, permitindo que tirassem fotos, e que a contrapartida seria apenas ajudarem a pressionar contra a construção.

A pauta que todo mundo imaginava que fosse render virou notinha de rodapé.

Cada um seguiu seu destino, e nunca mais se soube nem sobre o sentimento de medo da atriz, tampouco do que restou da bela vista de sua sala após a conclusão do espigão.

 

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