O dia em que Serra desprezou um cadeirante e falou em iídiche. Por Moisés Mendes

Esta foto é de outubro de 2010, um sábado, véspera do primeiro turno da eleição em que José Serra iria para o segundo turno e perderia para Dilma Rousseff.

É de uma notícia do UOL sobre uma caminhada do candidato com cadeirantes na Avenida Paulista. A moça que sorri é a então vereadora Mara Gabrilli, que seria eleita deputada federal naquele ano e agora é senadora pelo PSDB.

A caminhada seria no final da manhã, mas Serra nunca fez nada pela manhã. O dorminhoco, como sempre foi chamado, gosta de dormir até perto das 11h.

Naquele sábado, meu amigo jornalista Hamilton Almeida lembrava, na sombra do vão do Masp: o homem não chega antes do meio-dia. Eu fazia a cobertura da eleição para Zero Hora.

Todos estavam prontos desde manhã cedo, e Serra só apareceu depois das 12h e com cara de sono.

Cada político virou copiloto de um cadeirante. A turma havia sido reunida por Mara para exaltar a acessibilidade e os direitos de pessoas com deficiência.

Alckmin, Aloysio Nunes Teixeira e outros se divertiram empurrando as cadeiras. E se foram rindo pela Paulista e entraram numa lancheria.

Serra empurrou o seu cadeirante para a beira do balcão e largou o homem ali. Sem se despedir, sem dizer até logo, nada.

Me lembro da cara de constrangimento do rapaz. Estava cumprida a missão. Serra empurrou a cadeira, fez fotos, foi filmado, sorriu e depois se desfez do parceiro. Virou as costas e foi fazer a cena para a foto do cafezinho.

Depois, saiu a pé da lancheria, com três assessores, dobrou a esquina, encontrou ao acaso o psicanalista Contardo Calligaris (que o cumprimentou com um sorriso e um aceno de cabeça, sem prometer voto) e foi atacado por dois rapazes.

Os guris disseram que no domingo haveria uma festa judaica e que eles gostariam de gravar em vídeo uma fala de Serra em iídiche, com um convite para o evento. O vídeo seria divulgado na internet.

O tucano estava leve e feliz com a reação nas pesquisas. Não perecia o casmurro de sempre.

E os guris disseram então a frase, com três ou quatro palavras, que Serra repetiu, treinando a fala, e gravou a chamada para a festa, soletrando as palavras ao lado de um dos rapazes.

Olhei aquilo e, apenas como observador, pensei: será que o tucano não foi sacaneado por dois guris espertos?

Os caras agradeceram, foram embora, e Serra acelerou o passo (iria pegar o helicóptero para seguir campanha pelo interior do Estado).

Foi quando ouvi ele dizer a um assessor:

– Esses dois não me fizeram falar bobagem, né?

Nunca fiquei sabendo o que ele havia dito. Serra não perguntou o que a frase significava. Os guris saíram correndo, pulando e dando gargalhadas.

Me lembro do cadeirante largado depois da cena de campanha, dos guris saltitando e de Serra repetindo?

– Será que não fiz bobagem?

Ouvia-se na rua, já ao longe, os guris gargalhando, não em iídiche, mas em português mesmo.

Será que eles não riram (por todos nós e pelos cadeirantes usados e largados), 10 anos antes do que finalmente só agora parece ser o fim de José Serra?

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