O dia em que a bomba caiu no meu colo

Nosso colunista sobreviveu para contar a história.

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Eu só queria saber o que estava acontecendo. Só isso. Não estive na manifestação de terça-feira porque estava trabalhando. Trabalho de casa. Ando muito pouco pela cidade. Tinha um carro mas vendi. Uso o transporte público, quase sempre o metrô.

Desde o início da noite, buscava saber de onde sairiam os personagens das fotos épicas dos dias anteriores. Como eu não era alguém que havia me organizado de antemão, o palpite mais correto parecia ser seguir a Polícia Militar, que corria atrás da bagunça. A primeira experiência foi traumática. Vi seis viaturas Chevrolet Blazer, de sirenes ligadas, atravessando a Rua Barão de Itapetininga, às 18h30, como se fosse ali uma pista de testes.

Para encurtar a conversa, subimos todos, acovardados pelo rabicho de gás lacrimogêneo. Subimos as ruas que nos foram reservadas. Já que seguir a PM não estava fácil (vá você tentar pensar sob a influência da marcha de uma centena de animais), procurei alguma voz que guiasse aquela desordem. Era como chegar num lugar desconhecido e pedir informação; com a diferença vital de que é uma avenida pela qual transito todo dia. Alguns diziam: vá para ali para evitar a tropa de choque. Outros, os mais jovens, diziam ao serem provocados: vamos subir a rua tal porque a PM está ali.

Por fim: estrategicamente, a PM tinha o controle da situação. Cada um dos garotos que eu via queria ser herói, gritando palavras de ordem como “fascistas” contra a barreira de escudos que aparecia depois que eles colocavam fogo em algum cesto de lixo. O que eu vi foi uma sucessão de pequenas batalhas, quarteirão a quarteirão. Os personagens de cá, do lado onde eu estava, mudavam pouco; subisse a Consolação ou a Augusta, ruas paralelas, os jovens que emergiam eram os mesmos. Do lado de lá também não mudava. Era como o ensaio da mesma cena. Tudo se repetia, sem grandes mudanças.

E então aconteceu a batalha mais feia. Cheguei cara a cara com a tropa de choque, porque resolvi subir para perto deles e não descer depois da bomba, porque o vento soprava na direção dos que corriam. Eles estavam parados. Uma menina de blusa rosa começou a provocá-los.

Era ali, perto da esquina da Augusta com a Paulista, do lado do Banco Safra. “Vamos subir”, a menina dizia. Não havia muito mais protestantes. Éramos ela, dois garotos e alguns fotógrafos. Aí caiu outra bomba de gás lacrimogêneo do meu lado. Só posso dizer, reiterar, que funciona muito bem. Achei, na arquitetura do Banco Safra, algum conforto, porque o vento soprava para o outro lado e ali havia um bolsão de ar que respirar. Vi uma menina ser presa, filmei no meu celular.

E então eu meio que gostei da brincadeira. O pessoal se reorganizou e eu ia prestando atenção nas ordens que nasciam ali da multidão e as seguia. Eu não queria ser o corajoso da coisa, mas seguia. A PM ficava na dela fazendo o que faz, vociferando, se divertindo, até. E os moleques se divertiam também daqui do meu lado. O gás já era algo menor.

A essa altura, eu estava imbuído do espírito da bagunça. Naturalmente, a molecada quis desafiar a PM mais uma vez. Pediam para que a moça fosse solta, mas não foi. Foi embora no carro de operações especiais junto com as centenas de presos naquela noite.

E aí houve um confronto muito interessante. Eu tenho filmado. Está aqui. Ficamos eu e este garoto, diante da parede de policiais da tropa de choque. Ele correu antes, eu fiquei até tomar uma bomba no meu pé.

Foram os segundos mais longos da minha vida. A PM usa dois tipos de projéteis para dispersar as multidões. Não sei como são lançados. Mas são morteiros que saem ricocheteando pelo chão. Até aquela altura, eu já estava íntimo dos dois. Um deles era uma pastilha de gás lacrimogêneo. Outro, uma bomba de poder explosivo discreto parecido com os fogos de artifício daqueles que se vende com o nome “três tiros de canhão”. Mas que eu sabia que, perto do meu pé, poderiam me fazer perder alguns dedos.

Bom, por alguns longos milésimos de segundo, tive um desses no pé. Não sabia o que era. Estava só filmando o garoto que dançava ao som do que ele próprio cantava: “Atira na sua mãe”.

Graças a Deus, era só gás lacrimogêneo. Ou eu teria perdido meus dedinhos do pé.

O vídeo diz tudo.

Dali, fui tratar de beber. Não tanto que me impedisse de escrever o que vocês leem agora.

O vídeo filmado de outro ângulo pelo nosso repórter Andres Vera:

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