O dia que um juiz salvou um assaltante de um linchamento. Por João Marcos Buch

O Poder Judiciário

Publicado originalmente no Justificando

Por João Marcos Buch

Como um escritor realista, que busca no verossímil a história, relatarei mais uma vivência a partir de meus dias na execução penal, por ela tentando tornar linear o sentido do sofrimento humano, esperando que essa escrita chegue não só nas pessoas livres, mas especialmente penetre nos cárceres e se aproxime das pessoas que estão presas.

Eis:

– Doutor, lembra de mim? Sou aquele que o senhor salvou no assalto!

Eu estava em inspeção na unidade prisional e mesmo diante de toda a opressão do sistema, das portas de ferro e dos corredores de concreto, de faces pálidas saindo de celas escuras e úmidas para se colocarem diante de mim com seus olhos abatidos, aquela afirmação me trouxe um sorriso nos lábios.

Como esquecer desse fato? Não é sempre que se “salva” alguém de um assalto, muito menos se esse alguém é o próprio assaltante.

Não recordo se já escrevi sobre essa história, ou se a publiquei, creio que não. Faz algum tempo, num sábado pela manhã, após cortar o cabelo, estava indo de carro para o supermercado. Num sinaleiro, avistei um rapaz muito magro, camiseta branca suja, bermuda de tactel, numa bicicleta velha. Ele passou em frente ao meu veículo e, cambaleante, subiu na calçada, pulou da bicicleta, jogando-a no chão, entrando numa farmácia que havia na esquina. Vi ainda que ao correr para dentro ele colocou uma mão por sob a camiseta, simulando estar armado. Diante daquela situação, parei em frente a um portão e telefonei para a polícia. Enquanto isso, vi três homens de um posto próximo, de punhos cerrados, entrarem no estabelecimento. Em questão de segundos, antes da polícia chegar, eles saíram arrastando o rapaz e o jogaram no chão. Mais pessoas se aproximaram. Logo chutes começaram a ser desferidos contra o corpo inerte do assaltante. Imediatamente subi com o carro na calçada e dele saí gritando para pararem com aquilo. Mas alguns, continuando com os chutes, responderam: “Você não viu o que ele fez? Ele tentou roubar a farmácia, é um bandido!”. Interpus-me entre o assaltante e os justiceiros e novamente falei: “Rendido, ele está rendido!”. Um homem mais velho, há poucos passos de distância disse: “É verdade, ele está rendido”. Os chutes pararam e houve um silêncio. Logo a polícia apareceu. Dirigi-me aos policiais e contei o ocorrido, confirmei que realmente pelo que tinha visto o rapaz prostrado na calçada tinha tentado fazer um assalto na farmácia e que os populares começaram um linchamento, sendo importante apurar tudo e levar o jovem até o atendimento médico, somente depois realizando a autuação em flagrante.

Um crime, especialmente aquele que envolve violência contra a pessoa, não costuma ser um ato isolado no tempo e no espaço. Se não procurarmos conhecer seu entorno, a história dos envolvidos, especialmente daquele que o pratica no caso de violência urbana, jamais entenderemos seus motivos e por isso jamais evitaremos que volte a ocorrer.

Acontece que a ausência do estado social ao longo dos anos e hoje presente mais para insuflar a sectarização e a polarização, punindo desafetos ou na sua perspectiva “degenerados”, tem feito o país imergir num ódio sem precedentes. Há uma barbárie afligindo a todos – atualmente se fala em necropolítica, algo relativo à violência institucional tomada como projeto de estado, com neutralização de seres humanos para manutenção do status quo.  A partir de declarações de autoridades públicas, há uma construção artificial do outro. Pessoas ligadas à educação, à cultura, à justiça e principalmente as minorias, aqui me referindo não em números mas em detenção do poder político, são atacadas, criminalizadas e violentamente empurradas para a margem. O sentimento de comunidade está se perdendo.

Nesse contexto, muitos jovens pretos e pardos, de ambientes vulneráveis, para enfrentar a opressão, partem para o uso de drogas e violência urbana, caso do rapaz acima, e logo são alvos do sistema de justiça criminal. Outros tentam passar ilesos, adotando hábitos da classe média e rica, para serem menos matáveis na ótica do estado. Mas não adianta, a mira os localiza e o gatilho é puxado, para acertar “na cabecinha” como disse um mandatário público. Choca mas não surpreende mais que um jovem pobre, desarmado, pouco nutrido e fisicamente fraco, ao que tudo indica sob efeito de psicotrópicos, depois de rendido seja jogado numa calçada e chutado.

Aqueles que agrediram o rapaz do assalto estavam expelindo ódios para aplacar medos. Naquele momento não pensei duas vezes e prontamente agi. Mas assim o fiz porque estou acostumado com esse ambiente, sei da origem da violência e trabalho para garantir a lei e a Constituição, ciente que essa é a única forma correta de se viver em sociedade. Talvez, se eu estivesse no lugar daqueles agressores, tendo vivido o que eles já viveram e recebido marteladas de palavras de ódio e intolerância na cabeça, vindas de autoridades, talvez tivesse feito o mesmo. Quero acreditar que não, que seria como aquele senhor que concordou comigo.

– Lembro sim de você, espero que quando sair da prisão você consiga também sair dessa vida! – respondi ao detento.

– Eu também espero doutor, não sei muita coisa, mas sei que o senhor me salvou naquele dia. Obrigado – acrescentou ele.

– Não há o que agradecer – nós nos salvamos, pensei comigo – agora me fale, o que você precisa… – e segui na inspeção.

Um detento, num presídio superlotado, em uma cela com o triplo da capacidade, sem trabalho ou estudo, agradece ao juiz por tê-lo salvo de um linchamento. Já se disse que viver é sofrer e que temos que achar um sentido nisso. Começo a acreditar que estamos sofrendo sem sentido, porque não compreendemos mais o que é solidariedade, cooperação e justiça. Quando se experimenta o inferno, pouco resta.

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