“O dinheiro venceu”, diz Zeca Baleiro sobre banalização da violência e da miséria. Por Pedro Stropasolas

Publicado originalmente no Brasil de Fato

Por Pedro Stropasolas

Zeca Baleiro ainda vê luz em processos coletivos no pós-pandemia – Divulgação/Redes

Apesar de reconhecer as limitações impostas pela pandemia, Zeca Baleiro ainda acredita no poder transformador da arte.

“Mesmo a arte mais rápida, mais ligeira, mais popular, que às vezes é feita para um desfrute e uma digestão rápida, mesmo aí, há um filosofia embutida, que mobiliza as pessoas, que faz as pessoas tomarem atitudes com relação a sua própria vida e o seu destino”, define.

Com mais de trinta anos de carreira, Baleiro, hoje com 54 anos, já lançou mais de dez discos, gravou em parceria com nomes como a poeta Hilda Hilst e o cantor Raimundo Fagner, e produziu álbuns de artistas como Rita Ribeiro e Vanusa.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Baleiro fala, entre outros temas, sobre a “demonização” dos artistas por parte do governo federal, a quem ele define como “tacanho”.

“Os artistas são essenciais. Eles são de certa maneira um respiradouro da sociedade, tem uma importância vital para a vida coletiva”, opina Baleiro.

Seu lançamento mais recente é “Sangue”, em parceria com o cantor e compositor Chico Salem. A música, escrita por Arnaldo Antunes, apresenta um retrato bem cru do Brasil atual, que, para o músico, vive uma crise sanitária, econômica, e, sobretudo, moral.

“Há uma confusão muito grande de valores, e essa música denuncia um pouco isso. A banalização da violência, a banalização da pobreza, da miséria, de como a gente já não olha isso com espanto, de como o dinheiro realmente venceu acima de tudo”, aponta.

Quanto ao mundo pós-pandêmico, tema do samba “Depois do Fim” – que compôs em parceria com Wado -, o músico não se diz otimista em relação ao acirramento da exploração e das desigualdades no Brasil e no mundo.

Apesar disso, Zeca acredita que a solidariedade que emergiu a partir da pandemia nos dá esperança de que ainda haja espaço para uma “força contrária” guiada por “sonhos coletivos”.

“Um tempo de maior partilha, um tempo de generosidade, um tempo de se preocupar com a fome, com a miséria do outro, porque isso é uma coisa que está em todos os lugares, nas grandes cidades, ferindo nossos olhos, ferindo nosso sentimento e nossa sensibilidade. Precisa ser muito insensível para não ver isso e não ter compaixão”, afirma.

Confira a entrevista completa:

Neste mês de fevereiro, em parceria com Chico Salem, você lançou a música “sangue”. A composição de Arnaldo Antunes é uma canção de protesto e denúncia ao cenário político-social brasileiro. Qual a mensagem passada com a letra? 

A música popular sempre teve um viés de crítica social, de crítica de costumes e tal. Eu sou parceiro do Chico Salem em algumas músicas, e ele tem também parceria com outros artistas, como o Arnaldo Antunes, com quem ele toca, já tocou. E é uma música muito forte, muito interessante. Ela se encaixa nesse momento surreal que o Brasil está vivendo, porque a gente já atravessa uma crise sanitária, uma crise política, mas antes de tudo eu acho que a gente está passando por uma crise moral. Há uma confusão muito grande de valores, e essa música denuncia um pouco isso.

A banalização da violência, a banalização da pobreza, da miséria, de como a gente já não olha isso com espanto, de como o dinheiro realmente venceu acima de tudo. Dinheiro é importante, claro. Mas esse dinheiro perverso, aquilo que os estudiosos chamam de capital vadio, aquele dinheiro que devasta, que toma conta de tudo e não deixa oportunidades e espaços para a poesia, para a humanidade, para o humanismo, para o amor, o afeto, para a solidariedade. E a pandemia de certa maneira veio trazer um alerta, um duro alerta. Mas eu acho que as pessoas que estão conscientes, que estão despertas, ficaram mais conscientes e mais despertas. Quem não quer despertar, não desperta nunca. E a música traz luz sobre isso, sobre essa loucura em que o Brasil se transformou, e que culminou com a eleição deste mentecapto que hoje nos governa.

A violência, a desordem e a pobreza que passamos hoje têm mantido o status dos poderosos, como você já declarou anteriormente?

A frase infelizmente permanece atual e talvez mais viva do que nunca. A miséria e a pobreza das pessoas, e o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, é mantenedora da riqueza, do poder, do domínio de muita gente. Hoje você vê aí a Câmara e o Senado brasileiros tomados por uma gente que em outros tempos nem entraria ali, em tempos em que a democracia era mais levada a sério. A política, como fazer ético. Hoje a gente vive uma crise muito grande, de valores, como eu já falei, e a política tem sido um grande agente disso, dessa desigualdade social. Você vê hoje deputados, senadores, defendendo seus próprios lobbies, seus próprios interesses. É gente da hotelaria, do agronegócio, pastores, são vários grupos defendendo apenas seus interesses. Quando a política, no sentido mais nobre da expressão, é trabalhar pelo povo, pela sociedade. Isso aí parece até risível hoje, no tempo que a gente está vivendo. Eu acho que essa situação só se agravou.

Em meio à pandemia,  artistas se reinventaram fazendo lives, inclusive você. Quais foram e são os desafios da música e da cultura durante a pandemia em meio a um governo que busca “demonizar” a classe artística? 

Todos os artistas que dependem do palco sofreram muito, foram muito impactados, porque a gente depende da aglomeração. Isso vai levar tempo para se restabelecer. Enquanto isso, a gente vai inventando outros modos. O compositor tem outras fontes de renda, avulsas, os direitos autorais, direitos artísticos, de intérprete, discos em catálogo, isso sempre rende, são pequenas rendas. Mas o básico, o que emprega pessoas, o que nos sustenta, é essa rotina de shows, e que foi naturalmente interrompida. Eu tive uns 8, 9 shows cancelados. Isso vai demorar a se estabelecer um pouco, porque as pessoas estarão mais pobres. Já está em curso uma crise econômica. E também acho que estarão um pouco amedrontadas. Vai amedrontar muita gente, leva um tempo ainda para que as pessoas saiam desarmadas e desprendidas para ir em um show, em um grande jogo de futebol, embora a paixão que esses eventos provocam possa ter o poder de cegar também. É um mistério, a gente vai ter que esperar mais uns meses para ver como as coisas vão se desenrolar. Mas a gente, artistas, músicos, cantores, todos que dependem do palco, foram muito impactados por esse momento.

Essa coisa de demonizar a cultura, de demonizar os artistas, é infantil, é antigo, isso parece Macarthismo, anos 50, quando todo artista de que tinha ideias aproximadas do socialismo, do comunismo, era taxado, proibido de se apresentar em alguns lugares, era perseguido. Isso é uma coisa antiga e burra. Porque os artistas são essenciais em qualquer sociedade. Eles são de certa maneira um respiradouro da sociedade, têm uma importância vital para a vida coletiva. É típico de um governo que é tacanho e também de seus eleitores, que também são tacanhos, pequenos, pouco inteligentes. E fica esse joguinho, essa demonização da Lei Rouanet. É uma lei que precisava de reajuste, mas foi uma lei muito importante, responsável por muita coisa bacana que aconteceu nos últimos anos em termos de produção cultural no Brasil. Isso é do tamanho do próprio governo. Mas os artistas são maiores do que isso. Com patrocínio, sem patrocínio, a arte avança, não tem jeito.

O carnaval, para muitos, é um ato político. E participar da programação carnavalesca do Brasil é uma característica sua, com um repertório que vai de marchinhas a frevos e sambas-enredo. No ano passado, inclusive, você lançou um EP com marchinhas políticas, em crítica ao atual governo.  Hoje, o que o Brasil perde sem o carnaval? A ausência da folia é algo favorável para quem está no poder?

O carnaval é uma festa que celebra a liberdade, a irreverência do povo brasileiro, o gosto pela brincadeira, pela piada, pela fantasia, pela ironia. Em um momento em que a gente tem um governo autoritário, de direita, que está querendo proibir, demonizando a cultura, porque os artistas são de fato perigosos para a ordem, em certo sentido… o carnaval seria uma vingança, uma doce vingança, uma revanche do povo a tudo isso que está acontecendo. Com a natural interrupção dessa festa, o adiamento, a gente perdeu isso, esse poder de criticar, esse espaço para a loucura, que é muito saudável, é histórico, o carnaval não é de hoje. Além do que eu já falei antes, perde-se dinheiro. Muitas pessoas vivem do carnaval. Fico imaginando aquelas pessoas, por exemplo, brincantes do carnaval, de todos os lugares, do Maranhão, do Rio de Janeiro, de Pernambuco, que são praticamente sustentadas pela festa do carnaval. Vivem disso. Sem um carnaval deve ter sido um golpe muito duro para essas pessoas, mas tenho certeza que no ano que vem essa situação já vai estar debelada e a gente vai ter carnaval com alegria em dobro.

Você costuma exaltar ídolos em suas músicas, como em “Ela Nunca Diz”, uma homenagem aos poetas marginais Nicolas Behr e Chacal. No Brasil que vivemos hoje, vimos a morte de célebres da música, como Aldir Blanc, Moraes Moreira, sendo silenciadas e passarem despercebidas em 2020. Na atual conjuntura, a arte e seus criadores são os únicos caminhos para eternizar estes mestres?  

Muita gente partiu nesse período. Moraes Moreira e Aldir Blanc. Felizmente, eles não precisam da menção do governo. Seria uma questão de justiça e um quase dever, uma liturgia do cargo, um presidente da república de um país, lamentar, noticiar, comentar as perdas, as mortes, de artistas tão importantes e fundamentais como Aldir, Moraes, Sergio Santana, Olga Savary, tanta gente que se foi nesse período. Mas graças a deus, eles não precisam disso, porque o trabalho deles é tão grande, tão eterno, que permanece na boca do povo, no coração das pessoas, nas rodas de violão, nas noites e bares. É um repertório eterno, de uma gente que viveu o auge da canção brasileiro, o auge do mercado fonográfico, entre os anos 60 e 80. Então, a música deles está aí eternizada e nenhum governinho qualquer, tacanho, vai tirar isso deles

Em “Ela Nunca Diz”, eu homenageio muitas pessoas. Eu cito Nicolas Behr, Cacaso, Chico Alvim e Chacal, que são quatro representantes da poesia marginal, que é uma poesia praticada nos anos 70 e que influenciou profundamente a minha geração, influenciou a geração do Rock Brasil, alguns deles como Cacaso e Chacal foram letristas de música. Eu acho interessante isso, não como uma missão, um papel, mas como uma coisa divertida para as próximas gerações mostrar o que fizeram caras grandes e importantes como esses. Assim como regravar artistas do passado e mostrar para os mais novos. A arte também se alimenta e vai se nutrindo disso.

Atualmente, você acha que a música ainda tem poder transformador?

Acho que ela tem um poder muito grande de mobilização. Infelizmente, a mudança física, palpável, ela tem que se dar através da política, das leis. O que é uma pena porque a gente sabe no que a política se transformou. Mas a música, a arte, de uma maneira geral, ela tem um grande poder de mobilizar, de fazer as pessoas refletirem, de inquietar. Esses são os principais legados da arte. Mesmo a arte mais rápida, mais ligeira, mais popular, que às vezes é feita para um desfrute e uma digestão rápida, mesmo aí, há um filosofia embutida, que mobiliza as pessoas, que faz as pessoas tomarem atitudes com relação a sua própria vida e o seu destino.

Então, a música tem um poder muito grande nesse sentido. E hoje também com o advento de outras formas musicais, como o próprio rap, que é uma forma muito mais democrática. O cara não precisa estudar, não precisa ter harmonia, ele precisa saber versar, lidar com a palavra. Então isso criou também acessos muito interessantes, é muito democrático o que o rap pode fazer. Artistas sem muita instrução, mas inteligentes, capazes, talentosos, gente que não teve acesso a estudos formais, mas mandando ver e dando mensagens importantíssimas. Como em outros tempos também teve: João do Vale, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, gente que não tinha uma educação formal, e eram gênios criadores.

O samba “Depois do Fim”, que você compôs junto com Wado, é a única música que você gravou em meio à pandemia do covid-19. A letra, como você define, vislumbra um mundo pós-pandemia. Como será esse mundo?  Nele, ainda há espaço para a poesia e o amor?

Essa música foi a única que eu gravei, composta nesse período pandêmico, que eu gravei de fato no disco do Wado. Mas, compor mesmo, eu compus mais de 50 canções, com Wado, com Chico César, que eu me reaproximei mais nesse período. Ganhei parceiros novos, como Vinícius Cantuária, Flávio Venturini, Vicente Barreto e Lucina. Esse período também de opressão, de medo, de isolamento forçado, leva a gente para lugares mentais, no caso do artista, para lugares de criação, de ficar instigado, reflexivo, querendo falar sobre as coisas, dar o seu próprio ponto de vista sobre as coisas que estão acontecendo e tal.

Então, nesse sentido para mim foi muito rico, muito proveitoso. Essa música com o Wado fala um pouco sobre o que será o mundo depois disso tudo. Eu acho que isso permanece um grande mistério, para os artistas, para os antropólogos, para os sociólogos. Há várias teses, a tese do novo normal, que eu não creio muito, há várias suposições do que será. A gente só vai ver isso mesmo na prática, quando tudo isso passar.

Mas eu acho que o mundo se transformará, ou pelo menos, algumas pessoas se transformarão, o que já é bastante. Eu, por exemplo, me transformei. Eu acho que usei esse tempo para refletir sobre a vida, para adquirir novos hábitos e dispensar alguns hábitos antigos que eu não gostava, que eu não acho que eram legais, saudáveis, salutares. Tenho conversado com amigos, familiares, e vejo que muita gente vai sair transformada. A gente tem que tirar algum proveito, né. Aconteceu uma grande tragédia, uma coisa que abateu o país inteiro. Mortes, perdas, dores, medo, ansiedade, falta de grana, falta de trabalho, um monte de coisa.

Então, dessa situação quase de guerra, a gente tem que tirar algum proveito. O mundo, as pessoas, tem aí uma grande oportunidade, de refletir, de entender que as coisas precisam da gente, a gente precisa trabalhar pelo bem coletivo. A gente precisa meter a mão na massa de alguma maneira, fazendo seja lá o que for, e cada um tem que ir descobrindo seu destino, sua vocação, mas a gente tem que trabalhar pela sobrevivência do mundo, pela sobrevivência de valores que a gente acredita: o afeto, a fé no trabalho, a educação, a cultura, a distribuição de renda. Acreditar na utopia.

A vida é difícil, ela será cada vez mais difícil, porque há muita gente no mundo, muito menos dinheiro, muito mais desigualdade, muito mais exploração, isso é um quadro que só vai piorar. Não sou otimista e sonhador em relação a isso. Eu acho que as coisas são ruins, por isso até que a gente tem que trabalhar, fazer uma contra força no sentido de melhorar o máximo que a gente puder. Melhorar a sua rua, sua comunidade, seu entorno, você já está fazendo bastante coisa. O mundo é muito grande, e a gente precisa de muita gente para construir essa reação. Tentar inaugurar um tempo de partilhas, de partilhas reais, honestas, sinceras. E a pandemia também nos mostrou muita coisa assim. Gente se ajudando nas comunidades.

E é isso, um tempo de maior partilha, um tempo de generosidade, um tempo de se preocupar com a fome, com a miséria do outro, porque isso é uma coisa que está em todos os lugares, nas grandes cidades, ferindo nossos olhos, ferindo nosso sentimento e nossa sensibilidade. Precisa ser muito insensível para não ver isso e não ter compaixão. A gente precisa ser um pouco mais humano, eu não estou pedindo muito. Só que a gente tenha um pouco mais de humanidade, e veja as pessoas como elas são, com suas fraquezas, dores, vulnerabilidades, e tente melhorar para um mundo melhor. Eu acho que é uma luta difícil e árdua, porque as pessoas estão muito centradas nos seus próprios sonhos e projetos pessoais, mas a gente tem que sonhar de forma coletiva, senão as coisas não avançam.

Edição: Raquel Setz

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