O discurso de Villas Bôas elogiando Bolsonaro constrange pelo cinismo. Por Luís Felipe Miguel

O general Villas Bôas, que passou o Comando do Exército ao general Edson Pujol (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

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O elogio inaudito de Villas Bôas a Bolsonaro é mais uma comprovação de que a questão militar precisa ser tratada com centralidade no Brasil de hoje.

O discurso do general abraçou a ideia de que posições democráticas e à esquerda são “amarras ideológicas” a serem destruídas. Comprou sem ressalvas a conversa de que o verde-amarelismo hipócrita da direita representa um “sentimento patriótico” antes “adormecido”.

No trecho talvez mais chocante do discurso, construiu a metáfora de que o “rio da história” possui um “curso normal” ao qual deve forçosamente sempre voltar – e louvou o ex-capitão, o ex-juiz e o chefe da intervenção militar no Rio, general Braga Neto, como os grandes responsáveis para que essa volta ocorresse no Brasil.

Está claro que Villas Bôas se inclui nesta lista, com destaque. Não citou o próprio nome para simular modéstia, mas qualquer ouvinte avisado percebe a lacuna. O “curso normal” da história é um país à mercê de sua classe dominante, cioso de suas hierarquias, que nega direitos à maioria da população. Um curso tão estrito que um governo timidamente reformista já era causa de escândalo.

O Exército que Villas Bôas comandou foi o avalista do golpe de 2016 e interveio em momentos cruciais para garantir a continuidade do arbítrio. Um ação mais discreta do que nos anos 1960 – deixou que os juízes e procuradores da Lava Jato sujassem as mãos e permaneceu nos bastidores, garantindo que o trabalho não fosse interrompido – mas nem por isso menos relevante.

Muita gente boa se enganou com Villas Bôas. Mesmo quando a pressão do Exército sobre o STF estava escancarada, como no caso do famoso tuite exigindo a manutenção da prisão e inelegibilidade de Lula, houve quem se contorcesse para fazer interpretações benévolas. O general tem fala mansa e conta com a simpatia que sua condição de saúde desperta. Mas acho que o que pesa mais é um esforço de cegueira voluntária. Preferimos pensar que, embora depois da ditadura não tenha sido feito nenhum esforço para mudar a mentalidade dos oficiais e torná-la mais compatível com os valores democráticos, a questão militar se resolveu por milagre.

Não se resolveu. O discurso de Villas Bôas constrange pelo cinismo, festejandou um governo que em poucos dias já se desvelou, sem surpresa, como entreguista, imoral, incompetente e autoritário. Mas o que ele revela, para além disso, é que o Exército brasileiro continua no papel de cão de guarda da predatória e limitada burguesia brasileira.

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