O duplo equívoco de Felipe Neto: decepcionado com Lula, anuncia que não falará mais sobre política. Por Joaquim de Carvalho

Felipe Neto no Roda Viva. Foto: Reprodução/YouTube

A declaração de Lula sobre a prerrogativa do presidente da república de nomear o diretor da PF provocou polêmica na rede social, e levou o influenciador Felipe Neto a dizer que não se manifestará mais sobre política.

É muito provável que ele reveja a decisão, mas a fala merece análise, por refletir um equívoco sobre democracia.

A controvérsia começou quando Tico Santa Cruz, que é um artista comprometido com as causas da esquerda, criticou Lula pelo que disse na entrevista ao DCM.

“Se o que Lula falou sobre a prerrogativa do Presidente indicar o diretor da PF, caros amigos, por que vocês fizeram tanto estardalhaço? Por que estão querendo o depoimento dele pro Celso de Mello? Para com essa porra! Lula não é Deus”, afirmou.

Em resposta, Felipe Neto criticou os que não concordaram com Tico Santa Cruz.

“Mexeu com o fandom, fudeu”, disse. E Tico Santa Cruz comparou apoiadores acríticos de Lula aos de Bolsonaro.

“Nunca me intimidei. Tenho minhas percepções e sou capaz de elogiar e criticar! Quem só diz amém, não se difere de outras espécies que só mudam o objeto de adoração”, comentou.

Felipe Neto, que defendeu o golpe contra Dilma e depois fez autocrítica, emendou:

“Sem dúvida. O triste é saber q estamos cercados dessas espécies.”

E na sequência, fez outra postagem:

“Bizarro né? Tipo qnd o PT anunciou Michel Temer como vice. Política tem capítulos repulsivos.”

Por fim, Felipe Neto anunciou que não se manifestará mais sobre política:

“Eu cheguei à conclusão de q meu papel é seguir criando conteúdo de humor e diversão pra família e influenciando jovens a amarem a todos, independente das diferenças. Fora isso, deu pra mim, tô fora. Cansei.”

Dado o barulho que houve no caso de Alexandre Ramagem, inclusive com a decisão de Alexandre de Moraes de anular sua nomeação, é compreensível a decepção de Felipe Neto e de Tico Santa Cruz com Lula, mas é preciso registrar que o ex-presidente disse o óbvio:

O chefe da Polícia Federal é um cargo de livre nomeação do presidente, seja no Brasil ou países civilizados.

O que Lula defendeu foi uma questão de princípio, que poderá ser invocado num governo de direita ou esquerda.

Nos Estados Unidos, o FBI foi dirigido durante 38 anos por John Edgar Hoover.

Ele ajudou o senador Macarthy a perseguir americanos considerados comunistas e, mais tarde, criou um programa clandestino para perseguir adversários — não necessariamente do governo, mas do que ele considerava interesses do Estado.

Com esse programa, intimidou (ou tentou intimidar) Charles Chaplin, Martin Luther King e John Lenon.

A força dele vinha da corporação, que fortaleceu em seu longo período como chefe do FBI, em que sobreviveu a oito presidentes e 18 secretários de Justiça.

É provavelmente esse o tipo ideal de Moro.

É também muito provável que Bolsonaro tenha querido proteger o filho Flávio com a nomeação do delegado Alexandre Ramagem na PF.

Mas, a rigor, ele não precisava de Ramagem para interferir na PF.

Moro fazia isso por ele, como ocorreu no caso do porteiro que foi ameaçado com a Lei de Segurança Nacional por causa do depoimento sobre o caso Marielle.

A crise foi gerada quando Bolsonaro indicou um nome que não era do círculo de confiança do ex-juiz.

Quebrou o que poderia ser o projeto de poder de Moro, baseado no fortalecimento das corporações.

Alguns podem dizer: “Isso é bom, porque tira o poder dos políticos”.

Não. E o melhor exemplo é Hoover, dos EUA, que pode ser considerado o avô do lawfare, prática que Moro conhece bem.

 

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