
A indignação dá o tom das manchetes sobre o grampo e o vazamento de conversas de uma reunião reservada na quinta-feira, no Supremo. Foi em encontro prévio ao que os ministros realizariam logo depois para decidir pelo afastamento de Dias Toffoli do caso Master.
Mas que indignação é essa? A Folha chega a publicar que as falas vazadas para o site Poder360, reproduzindo frases dos ministros na íntegra, poderiam ser resultado de gravação feita pelo ministro Dias Toffoli.
Por que Dias Toffoli? Porque as frases dos colegas o favorecem, com ataques diretos ao relatório da Polícia Federal que fragilizou o ministro.
A indignação é o componente sempre presente onde há cinismo. Porque o que mais vaza de dentro do Supremo é conversa de ministros com um interlocutor de fora, geralmente político.
Como pode uma conversa, por exemplo, de Gilmar Mendes com um deputado chegar aos colunistas de fofocas de Folha, Globo e Estadão? Se a conversa vazada deixa mal o deputado.
Porque, por óbvio, alguém do gabinete do ministro repassou o vazamento. Nenhum ministro chegaria à petulância e correria o risco de telefonar para Malu Gaspar, a jornalista que vive de informações ‘sem fonte’ e de fofocas, para informar sobre tudo o que conversou com um sujeito que precisa ser depreciado.
O ministro manda que um assessor passe a informação. É assim no mundo todo, de Manaus e Londres. Vazam informações porque alguém ganha com esses vazamentos.
E também é assim que sobrevivem as colunas de fofoca dos jornalões. Quase todos os dias alguém vaza uma informação de alguma alta autoridade, incluindo ministros do STF.
É só buscar no Google. Em casos raros o interlocutor da alta autoridade do Judiciário é quem vaza a informação, que pode interessar a ambos.
O que aconteceu agora teve essa reação porque foge um pouco do padrão. O vazador, se estava dentro do Supremo, passou ao Poder360 conversas de colegas do STF.
Os vazados foram os ministros. Mas o método é o mesmo. Quando os interlocutores dos ministros são outros, aí pode? Mas quando os vazados são os próprios ministros, aí não pode?

Veja abaixo a transcrição de falas atribuídas aos ministros, publicadas pelo Poder360 e já reproduzidas com uma mistura de euforia e falsa indignação pela grande imprensa.
Gilmar Mendes: “Eu acho que o que está por trás disso é que o ministro Toffoli tomou algumas decisões ao longo do seu tempo nesse caso Master aqui no STF que contrariaram a Polícia Federal. E a Polícia Federal quis revidar”.
Cármen Lúcia: “Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”. A ministra disse que ainda que, apesar de ter “confiança” em Toffoli, era necessário “pensar na institucionalidade”.
Luiz Fux: “O ministro Toffoli para mim tem fé pública. Meu voto é a favor dele. Acabou. Eu não sei o que vocês estão discutindo”.
Kassio Nunes Marques: “Para mim, isso é um nada jurídico”. Em seguida, critica Fachin por querer votar a uspeição de Toffoli. Sua frase, publicada de forma literal, é a seguinte: “Isso é um absurdo: o juiz lá da comarca do interior passará a ser comandado pelo delegado local se aceitarmos esse tipo de situação. Acabou o Poder Judiciário do Brasil. O senhor [Fachin] não pode colocar em votação a arguição. Minha sugestão é que o ministro relator do processo faça uma proposição dizendo que não é impedido nem suspeito e coloque os argumentos dele diante do que foi apresentado e a gente vota. E pelo que vi aqui, ele vai ter maioria. O ideal seria unanimidade, presidente. Mas estou falando mais sobre encaminhamento, pois do mérito eu não tenho dúvida”.
André Mendonça: “Tem uma questão sobre o que é descrito como relação íntima do ministro Toffoli”. Em seguida: “Isso não existe. Está aqui claro que não existe: relação íntima em 6 anos só com 6 minutos de conversa? Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública. Então, isso está descartado”.
Cristiano Zanin: “Sou há um ano e meio relator de um caso que envolve três ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e a Polícia Federal até hoje mandou para mim muito menos informação do que essas 200 páginas, com fotos de satélite, cruzamento de celulares. Isso aqui tudo é nulo”.
Flávio Dino: “Essas 200 páginas [de relatório da PF] para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico. A crise hoje é política, presidente [Fachin]. Em 2035, se Deus me der saúde, eu quero estar nesta cadeira. E esta cadeira tem bônus e ônus. Eu acho que não adianta pensar nesta cadeira só nos bônus. Eu acho, sr. presidente, que o sr. deveria ter resolvido isso dentro da institucionalidade da presidência”.
Não há transcrição de falas de Alexandre de Moraes, mas apenas observações de que o ministro também criticou a Polícia Federal.
(E nem vamos falar na total ausência de indignação quando Sergio Moro mandou grampear Dilma, criminosamente, e acabou grampeando Lula e depois divulgou o grampo em conluio com a Globo. Nunca aconteceu nada com Sergio Moro, até hoje impune, apesar dos crimes dos quais é acusado.)