Uma resposta ao feminismo? O estranho fenômeno do “meninismo”

Fotos de homens bonitos no metrô de Londres são compartilhadas até na China
Fotos de homens bonitos no metrô de Londres são compartilhadas até na China: objetificação?

 

Antes que voe a primeira pedra, o “meninismo” é uma piada. Por enquanto, é menos um movimento organizado e mais um neologismo surgido na internet. A palavra é baseada no prefixo “men” (plural de “homem” em inglês) e nitidamente usa a etimologia de “feminismo” como inspiração.

O termo surgiu como hashtag no Twitter no fim de 2014, como forma de debochar dos homens mal informados que, ao se deparar com as principais reivindicações do feminismo – o fim da objetificação da mulher, da violência doméstica e desigualdade nos salários, por exemplo – sentem vontade de protestar, requerendo os mesmos direitos para si. Como se não os tivessem, claro. “Precisamos de um espaço para discutir as dificuldades de ser um homem no século 21”, dizia uma das páginas.

Não era para levar a sério. O tal menininsmo surgiu, portanto, para parodiar as besteiradas que acabam aparecendo de vez em quando na rede como o “o dia do orgulho hétero” ou “orgulho de Ser Branco”, etc.

(Uma tristíssima constatação é a de que nosso atual presidente da Câmara Federal, o notório Eduardo Cunha, seja autor de proposta para a criação do dia do orgulho hétero. Mas isso é assunto para outra coluna.)

Com bom humor, postaram fotos de homens sem camisa com os mamilos cobertos por uma tarja e a frase “direitos iguais”. Em outro post, um homem um cartaz em que está escrito: “Eu preciso do meninismo porque o filme ‘Magic Mike’ [estrelado por Channing Tatum] promove uma expectativa que não é real sobre como o corpo dos homens deveria parecer”.

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No começo, o “meninismo” era uma paródia bem humorada de mensagens feministas

Mas, aos poucos, a hashtag foi sequestrada exatamente pela turma oposta, aqueles que desejavam atacar o feminismo – até por pessoas mais ou menos coerentes que se sentem incomodado com a agressividade de algumas das alas mais exaltadas do movimento feminista.

Hoje, a coisa degringolou. A principal conta “meninista” do Twitter em inglês, com 725 mil seguidores, publica textos misóginos de extremo mau gosto. Não é diferente das piadas que volta e meia levam humoristas brasileiros ao balcão da Justiça. Mas ficou relegado aos cantos mais mal iluminados da internet.

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O termo acabou sendo usado para a divilgação de piadas misóginas como esta (“Cientistas descobriram que há inteligência nas mulheres, infelizmente a maioria cospe fora”)

De uns dias para cá, no entanto, o “meninismo” voltou a aparecer com força fora do campo de atuação da escória misógina. A razão foi a viralização de fotos de homens bem apessoados flagrados à vontade nos metrôs de Paris e Londres.

É neste ponto em que eu gostaria de, depois de explicar o que é a tal palavra, fazer uma pergunta. Existe mesmo objetificação do homem pelas mulheres?  Se ela existe, deveria incomodar?

As fotos, tiradas sem autorização dos homens, começaram a circular num site inglês há algumas semanas a repercussão na internet chinesa as transformou em notícia.

O nível dos comentários das chinesas, traduzidos em reportagem da BBC, é baixo. “Quero pegar o metrô todo dia”, e outras no mesmo diapasão. Em qualquer página do facebook dedicada a fotos de homens com corpos expostos, é possível ler barbaridades piores do que as ditas por pedreiros a moças de minissaia.

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A recente exposição involuntária de usuários de metrô de Londres em fotografias virais deu mais força ao “movimento”

Para que roubar a foto de um homem no metrô e colocar na internet? Nem o rosto dos caras é preservado. Não deixa de ser uma grosseria. E um crime. E, já que estamos aqui: por que só os bonitões, já que as chinesas se dizem impressionadas com o “cavalheirismo”? O “mendigo gato” torna-se personagem viral na internet e recebe tratamento, enquanto o feio e desdentado está pedindo dinheiro no mesmo lugar até hoje.

Morte ao “meninismo”, sempre. Que, em português, já soa como coisa de menino, mesmo.

Mas eu acho que as mulheres não estão se ajudando nem um pouco ao imitar o que os homens têm de pior.

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