O estranho silêncio do “Careca” da Odebrecht. Por Mauro Donato

"Vizinho"
“Vizinho”

 

Nas planilhas da Odebrecht, nas quais todo mundo tem apelido, Pedro Novis é o ‘vizinho’. A alcunha se deve pelo fato de Novis, ex-presidente da empresa, já ter sido vizinho do ‘careca’ que também consta das listas. Careca é José Serra.

Em seu acordo de delação, Novis afirmou que para a campanha presidencial de Serra em 2010 foram pagos 23 milhões. Isso, obviamente via caixa dois, lá na Suiça, tudo como manda o figurino. Oficialmente, ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a Odebrecht declarou ter feito uma doação dez vezes menor (R$ 2,4 mi).

A ocorrência desse caixa dois já era de conhecimento de todos faz muito tempo, mas agora com o depoimento não só de Pedro Novis mas também do diretor Carlos Armando Paschoal, que era quem fazia a ponte entre a empresa e os políticos, a situação para José Serra ficou ardida.

O ‘careca’ disse que não irá comentar sobre ‘supostos vazamentos de supostas delações’. Curioso como as delações agora são tratadas como suposições, vazamentos, excessos. Há algum tempo eram provas irrefutáveis.

O então candidato à presidente em 2010, ex-ministro e atual chanceler do governo golpista de Michel Temer pode tentar se esquivar de explicações neste primeiro momento em que os dois executivos da empreeiteira afirmam a mesma coisa. Mas a Odebrecht tem outros 78 funcionários que ainda negociam seus termos para delação na Lava Jato.

Oitenta pessoas que conhecem e sabem muito bem das atividades de Marcio Fortes, ex-deputado do PSDB e coordenador político da campanha de Serra naquele ano. A relação com a citação do ‘vizinho’, por exemplo, foi encontrada na casa de Benedicto Barbosa da Silva Júnior, presidente de Infraestrutura da Odebrecht. Ele já está preso desde fevereiro.

O outro operador para desvio da dinheirama, segundo os executivos, é o empresário Ronaldo Cezar Coelho (exatamente, o irmão do árbitro que comenta futebol na Globo). Coelho foi um dos fundadores do PSDB e é tão ligado a Serra que emprestava seu avião particular para a campanha do tucano. Era considerado o ‘tesoureiro informal’ da campanha, seja lá o que isso quer dizer.

Após assinatura dos acordos para as delações dos funcionários da Odebrecht, o material irá para o STF com fins de receber homologação do ministro Teori Zavascki que, espera-se, tenha pulso firme. Zavascki curvou-se ontem ao ataque histérico de Renan Calheiros e suspendeu a operação Métis da Polícia Federal que investigava um esquema envolvendo agentes policiais legislativos que de tudo faziam para obstruir a Lava Jato.

Em resumo, concordou com Renan que classificou como ‘juizeco de primeira instância’ o juíz Vallisney Oliveira. Aqui um parêntese para outra curiosidade na evolução dos comportamentos. Vallisney é um juíz de primeira instância, assim como Sergio Moro. E sempre foi um espanto o Moro estava fazendo, tocando fogo no circo. Mas Moro tinha as forças golpistas a seu favor, era o salvador da pátria, o paladino da justiça, não importando seus abusos e arbitrariedades. Os alvos eram Dilma, Lula e o PT. Já quando a lama começa a chegar no Senado, no PSDB, no PMDB, um juíz de primeira instância torna-se um ‘juizeco’.

O ninho tucano nunca foi vasculhado como se deve. Será algum dia?

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