O extremista moderado contra os irmãos radicais. Por Moisés Mendes

Atualizado em 11 de abril de 2026 às 21:40
Carlos Bolsonaro e Renan Bolsonaro. Foto: Reprodução

É intensa e trabalhada em mutirão e de forma articulada pelos jornalões a campanha para que, antes da ação dos marqueteiros, Flávio Bolsonaro consolide sua imagem de moderado. Nesse esforço, até Jair Renan virou chamada de capa do Globo.

Foi no dia 8, em notícia que ficou em destaque até a noite no jornal online: “Flávio tenta reaproximar Eduardo e Michelle e atua para conter críticas de Carlos e Jair Renan a aliados”.

O vereador Jair Renan, considerado medíocre até por parceiros da extrema direita de Balneário Camboriú, virou protagonista no Globo, ao lado do irmão Carluxo, para que Flávio se apresente como conciliador.

Jair Renan e Carluxo são radicais, não Flávio. É essa a palavra – conciliador – que a Folha também repete em texto desse sábado, dia 11, com chamada de capa, ao fazer o agrupamento das opiniões de meia dúzia de marqueteiros sobre o filho ungido.

O jornal foi ouvir fabricantes de imagens, para produzir essa mensagem de assessoria de imprensa: “Flávio Bolsonaro busca marqueteiros que evitem radicalização na campanha”.

O que importa é o marqueteiro. É quem vai fazer o molde para a nova face de Flávio Bolsonaro, o candidato que, por pressão das redes sociais, volta a ter pai e sobrenome nos jornalões.

A manchete que transforma Jair Renan Bolsonaro em personagem da eleição foi publicada na quarta-feira. Na sexta-feira, Flávio, o moderado, fez essa afirmação no Fórum da Liberdade, em Porto Alegre:

“Um dos principais fatores que têm que ser levados em consideração na hora de escolher seu senador é: você é a favor ou contra impeachment de ministros do Supremo. Não tenho dúvida que o Senado, que vai ter dois terços renovado, vai ser majoritariamente a favor dessa pauta”.

O moderado defendeu a interdição de ministros do STF e foi aplaudido de pé pela plateia de ‘liberais’ absorvidos pelo bolsonarismo. E depois afirmou: “Se tem uma coisa que todos nós pré-candidatos temos que ser é radicais nessa parte da segurança pública, em defesa de nossa soberania”.

No dia 28 de março, em palestra no Texas, Flávio, o defensor da soberania brasileira, havia oferecido, como compromisso de candidato, acesso dos Estados Unidos às terras raras do Brasil, para que assim os americanos enfrentem a China.

No texto desse sábado na Folha, a repórter Carolina Linhares apresenta Flávio, a partir do consenso dos marqueteiros ouvidos, como um político de “perfil conciliador” em relação ao pai.

Manchete da Folha. Foto: Reprodução

Um dos marqueteiros afirma que o eleitor brasileiro busca mudanças e por isso defende que Flávio – escreve Carolina Linhares – “apresente um projeto de futuro”.

O que vem aí e cabe num projeto desse tipo é vasto e ameaçador. Não no sentido da repetição do que o pai já foi e já fez, mas do que o filho pode apresentar como a nova face fofa do bolsonarismo.

A cara de Flávio será remodelada pelos marqueteiros de acordo com a lição mais consagrada da política de que é preciso fazer concessões e dar a entender que há mudanças para que nada mude. É o momento da harmonização facial.

O marketing vai sugerir que Flávio Bolsonaro é hoje outra criatura da extrema direita, e metade do país irá fingir que pode vê-lo assim. É como boa parte dos brasileiros ainda vê a Terra plana, mesmo depois da Artemis II.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/