O extremista moderado. Por Carlos Castelo

Atualizado em 6 de maio de 2026 às 19:35
Ilustrativo sobre o extremista moderado
Charge: Leandro Assis e Triscila Oliveira

Por Carlos Castelo.

O problema do moderado contemporâneo é que ele precisa parecer perigoso o suficiente para os radicais e civilizado o bastante para a sogra no almoço de domingo.

Antigamente era bem mais simples. O sujeito queria fechar o Congresso, prender opositores e transformar minorias em decoração de porão? Muito bem: chamava-se extremista de direita e pronto. Havia certa honestidade no ofício. Hoje não. Agora todos querem ser moderados. É uma época em que o cidadão ameaça metade da humanidade pela manhã e, à tarde, concede entrevista dizendo que foi mal interpretado.

Foi assim que apareceu a figura curiosa do extremista moderado, criatura semelhante ao vegano que come churrasco, mas só nos fins de semana.

Imagine então o que seria um Adolf Hitler moderado.

Um Hitler conciliador. Um Hitler de centro. Um Hitler que, ao invés de invadir a Polônia imediatamente, criaria primeiro um grupo de trabalho. Um homem firme, porém, dialogador. Alguém que diria:

— Precisamos eliminar certas liberdades, mas com responsabilidade fiscal.

O Hitler moderado pisaria no autoritarismo com cautela democrática. Em vez de suásticas gigantes, talvez optasse por um logotipo mais clean, uma identidade visual mais sóbria, quem sabe em tons pastéis. O bigode permaneceria, mas aparado por uma consultoria de imagem.

Não haveria gritaria em comícios. O Hitler moderado falaria baixo, pausadamente, como quem explica um financiamento imobiliário. Terminaria cada frase com “respeito opiniões divergentes”, enquanto divergências desapareceriam misteriosamente na semana seguinte.

A imprensa internacional diria:

“Apesar de algumas declarações polêmicas sobre raça, perseguição política e eliminação de opositores, analistas consideram Hitler mais pragmático do que ideológico.”

Pragmático. Palavra maravilhosa. Serve para transformar fanatismo em plano de governo.

Flávio Bolsonaro apontando para uma foto de seu pai, Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, é tratado como uma figura “moderada” na sua família. Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

O Hitler moderado talvez não queimasse livros. Apenas cortaria verbas de bibliotecas por excesso de papel. Não proibiria partidos. Apenas criaria dificuldades técnicas para seu funcionamento, como exigir reconhecimento facial, certidão negativa de bisavós e comprovante de pureza ideológica autenticado em três cartórios.

E teria apoiadores indignados:

— Chamam o Adolf de ditador só porque ele quer um pequeno controle absoluto sobre a sociedade. Que exagero!

A certa altura, alguém perguntaria:

— Mas se este é o Hitler moderado, como seria o radical?

Não apareceria ninguém para responder.

Porque toda autodeclaração de moderação feita por um extremista depende de uma mágica semântica: deslocar tanto o limite da loucura que o absurdo passe a parecer razoável. É como um sujeito entrar num restaurante com um lança-chamas e tranquilizar os presentes dizendo:

— Calma. Eu nem trouxe gasolina extra.

No fundo, o extremista moderado não quer abandonar o extremismo. Quer apenas menos espuma na boca e mais treinamento de mídia.

E talvez seja essa a maior invenção política contemporânea: o radical que se vende como ponderado porque aprendeu a sorrir.

O problema é que há ideias que não ficam moderadas só porque foram ditas em tom calmo. Um crocodilo continua sendo um crocodilo. Mesmo usando blazer azul-marinho e falando em pacificação nacional.

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