O feminismo saiu chamuscado por condenar prematuramente Neymar apenas por ser Neymar. Por Nathalí Macedo

Neymar (Pascal GUYOT/AFP)

Se tem uma coisa para a qual o caso Neymar serviu, essa coisa foi nos fazer questionar nossos métodos – não no âmbito individual, mas enquanto militâncias feministas e/ou de esquerda.

De ambos os lados, estava a postos o tribunal das redes sociais.

Os marmanjos da brodeiragem, depois de uma breve perícia nos prints deliberadamente expostos pelo jogador, apressaram-se em enquadrá-lo como “o homem poderoso que é destruído por uma mulher bonita e maquiavélica”. É assim desde Lilith e Eva.

Já a maioria dos grupos feministas e páginas de esquerda estavam prontos para baterem o martelo: culpado!

Penso, inclusive, que a sororidade sem critérios com a qual acolheram essa mulher – desde o início, pouco favorecida pelos fatos concretos -, decorre dessa mania que as militâncias têm de quererem salvar o outro, trazê-lo para a luz de sua própria verdade.

Esse impulso de levar a palavra do feminismo às fracas e oprimidas está levando muitas mulheres e grupos à incoerência.

Fora que acusar um jogador de futebol direitista é sempre um prato cheio. Mesmo que a história toda não faça o menor sentido.

Narrativamente, bater em Neymar é bom, sobretudo, porque ele é Neymar.

Engraçado – ou deprimente – é que eu perguntei a uma conhecida da militância feminista (que postava defesas muito entusiasmadas à suposta vítima desde que o caso chegou à mídia) se ela não se preocupava com a descredibilização de acusações reais de estupro, que aconteceriam em muito maior escada depois da repercussão desse caso, caso ficasse provado que a mulher estava mentindo.

Eis a resposta, na íntegra: Nunca a defesa de uma mulher vai ser prejudicial à denuncias de estupros. O que prejudica e tira a credibilidade de uma denúncia é o patriarcado.

Oi?

Então vivemos enfim a completa dissolução do indivíduo? Uma mulher não pode estar mesmo mentindo, tentando aplicar um golpe?

Ou então tudo bem se todo o movimento feminista tomar partido de uma mentirosa diante da opinião pública? Isso é no mínimo de uma ingenuidade triste.

Na maioria esmagadora das vezes, mulheres que denunciam estupros estão de fato falando a verdade – e são descredibilizadas e demonizadas em todas as esferas da sociedade.

Mas, em casos isolados, mulheres também mentem, como humanas que são – daí a importância de valorizar e respeitar o indivíduo, que sempre será a menor minoria.

Em vez disso, os feminismos e as esquerdas se apressaram em acolher a mulher só porque é uma mulher e condenar o homem só porque é um homem (de direita, diga-se). Fecharam os olhos para o fato, socaram a cara da coerência e saíram berrando que é “culpa da cultura do estupro.”

E ai de quem tentasse discordar: aqui vos fala quem quase teve carteirinha de feminista cassada apenas por fazer um convite à coerência: até então, apenas a exposição dos prints no Instagram – crime de reveng porn – é realmente condenável. .

Tive comentários apagados em grupos feministas e ouvi que eu estava “passando pano pra macho.” Como se os fatos importassem menos que os achismos – tal qual os terraplanistas – vivi pra ver feministas censurarem a coerência.

Ao fazerem isso, desrespeitaram a luta coerente que muitas ainda tentam empenhar contra a cultura do estupro.

Desrespeitaram todas as mulheres que realmente foram estupradas e lutam por justiça. Mais do que isso: deram insumo às acusações que temos sofrido enquanto movimentos – incoerentes, patrulheiras, militontos…

Graças a isso, tivemos até que lidar com o desaforo da “Lei Neymar da Penha.”

De agora em diante, toda a pressão que tentarmos exercer enquanto movimentos, todo barulho que tentarmos em casos de violência de gênero, tudo isso a que temos chamado de “resistência” será ainda mais descredibilizado e, se continuarmos neste caminho, muito em breve se tornará inútil.

Parabéns aos envolvidos.

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