Crepúsculo

Uma obra-prima filmada num apartamento e com três atores (dois deles octogenários). Isso é Amour

Georges e Anne: nem uma lágrima

O filme Amour, de Michael Hanecke, é lento, tem basicamente três atores, dois deles octogenários, e se passa dentro de um apartamento.

Desistiu?

Não faça isso. É uma obra-prima. A estreia no Brasil está marcada para janeiro.

O diretor Michael Hanecke conta a história um casal de professores de música aposentados, Anne e Georges, que moram em Paris. Têm uma filha única chamada Eva. Anne sofre um AVC, é operada – e a operação é malsucedida. Ela tem sequelas. Daí em diante é um poema sobre a morte, a velhice, a vida, a solidão, a compaixão — e sobretudo, claro, o amor.

Não o amor a que estamos acostumados a ver em Hollywood. Eles não são jovens apaixonados. Eles não são bonitos. É o amor da maturidade, aquele que, reza a lenda, deveria existir na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. A maestria de Haneke está em mostrar menos, falar menos, e insinuar mais. A frase “eu te amo” não é ouvida. O cotidiano de Georges e Anne é comum. Eles conversam amenidades no café da manhã, ouvem música, comentam notícias de jornal, recebem visitas da filha Eva (Isabelle Hupert). Até que a senilidade de Anne começa a cobrar seu preço. Ele promete a ela que jamais a colocará numa casa de repouso.

Dentro disso há mais poder, tensão, conflito e romance do que nos 490 filmes de 007 e 852 Batmans.

Amour ganhou a Palma de Ouro em Cannes, entre outros prêmios. Quem faz Georges é Jean Louis Trintignant, glória do cinema francês (O Conformista, Z, E Deus Criou a Mulher, De Repente, Num Domingo). Trintignant não atuava há 14 anos e topou essa empreitada porque o papel foi escrito para ele. “Haneke tem domínio completo sobre o cinema, dos aspectos técnicos como som e fotografia à maneira como lida com os atores”, disse. Emmanuelle Riva (Hiroshima meu amor, A Liberdade é Azul) faz sua mulher. O primeiro tem 80 anos. Emmanuelle, 85. Numa época em que qualquer pessoa – especialmente atores –, qualquer pessoa foge, inutilmente, desesperadamente, das rugas ou da perda de cabelo, os dois abraçam a decadência física com toda a força de seu talento.

O olhar ausente de Anne e sua progressiva dificuldade de se comunicar são um lembrete de que tudo acaba (assim como as músicas do filme, interrompidas bruscamente). A atitude compassiva e corajosa de Georges, a maneira minuciosa como ele corta margaridas para ela, as cenas em que ele a imagina ao piano como antigamente, a sala vazia – são instantes de beleza e reflexão. Não há uma lágrima derramada. Não é um dramalhão.

É a coisa mais próxima do que se poderia chamar amor que uma obra de arte é capaz de produzir.

 

O diretor Haneke com Emmanuelle Riva e Jean Louis Trintignant

 

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