
O presidente dos Estados Unidos se envolve em um escândalo sexual. Para manipular a opinião pública e acobertar o caso, o governo fabrica uma guerra. Essa é a premissa da comédia de humor negro “Mera Coincidência” (1997), mas parece uma descrição da vida real: Donald Trump, a guerra no Irã e a divulgação de sua relação com o pedófilo bilionário Jeffrey Epstein. Desde o início do conflito no Oriente Médio, o caso Epstein desapareceu das manchetes — e isso está longe de ser coincidência.
No filme de Barry Levinson, estrelado por Robert De Niro e Dustin Hoffman, o presidente assedia uma menor de idade às vésperas da eleição e contrata um “faz-tudo” (De Niro) e um produtor de Hollywood (Hoffman) para montar a farsa: uma guerra na Albânia por causa de petróleo. Mas por que a Albânia? Ninguém tem certeza de onde fica, ninguém se importa com ela e é muito difícil obter qualquer notícia de lá.
O personagem de De Niro, Conrad Brean, tem um lema: “Para mudar a história, mude o começo”. Para distrair a imprensa do escândalo com a garota, ele sugere estender uma viagem presidencial à Ásia, enquanto lança desmentidos oficiais de que o novo bombardeiro B-3 está sendo ativado antes do previsto. “Mas não existe nenhum bombardeiro B-3”, dizem a ele. “Perfeito! Neguem até que ele exista!”. Enquanto isso, o spin doctor cria uma falsa crise internacional com a Albânia.
A mentira funciona no início, mas quando deixa de repercutir após uma semana e os jornais voltam a comentar o caso do presidente, seus representantes têm uma nova ideia: inventar que um soldado americano foi deixado para trás na Albânia e será salvo pelo governo. Mais uma “coincidência”: nesta segunda-feira (6), o Irã acusou os EUA de uma farsa ao questionar o suposto resgate de um militar, afirmando que a ação não aconteceu e que foi usada como fachada para roubar urânio enriquecido.
Trump havia dito ontem que o país encontrou o segundo piloto do caça derrubado em território iraniano na sexta (3), mas até mesmo jornalistas americanos relataram que o militar segue desaparecido. De acordo com o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, ainda há “muitas dúvidas e incertezas” sobre o resgate. “A área onde se afirmava que o piloto americano estava, na província de Kohgiluyeh e Boyer Ahmad, fica muito longe da área onde suas forças tentaram pousar no centro do Irã”, ressaltou.

O roteirista e ex-redator de discursos políticos Don Watson afirmou, em uma discussão sobre eleições nos EUA, que o público americano tem dificuldades para distinguir a realidade da fantasia. A fronteira entre essas duas dimensões nunca esteve tão nebulosa quanto em “Mera Coincidência”, cujo título em inglês é “Wag the Dog” (redução de “o rabo abana o cachorro”). No dicionário Merriam-Webster, a expressão descreve a situação em que “uma pessoa ou organização importante ou poderosa está sendo controlada por algo ou alguém muito menos importante ou poderoso”.
O filme foi lançado menos de um mês antes do escândalo Bill Clinton-Monica Lewinsky, que estourou em janeiro de 1998. Em agosto daquele ano, logo após o presidente admitir “contato íntimo inadequado” com a secretária perante um grande júri e pedir desculpas publicamente à nação, seu governo lançou ataques aéreos no Afeganistão e no Sudão, desviando efetivamente o foco da mídia para uma enxurrada de imagens dramáticas transmitidas todas as noites aos lares americanos.
A história recente dos Estados Unidos está repleta de casos semelhantes. Por que eles invadiram Granada em 1983? Logo após uma bomba terrorista matar fuzileiros navais no Líbano e o então presidente Ronald Reagan cair em desgraça, militares do país desembarcaram na pequena ilha caribenha que a maioria das pessoas nem sabia onde ficava. Sob o clássico pretexto de “proteger os cidadãos norte-americanos” e “restaurar a democracia”, o objetivo era dar um golpe no governo socialista da ilha e instalar um regime alinhado aos interesses dos EUA.

Quando tudo terminou, Reagan havia provado como é fácil manipular a população para despertar um sentimento patriótico, usando distrações ou crises fabricadas para desviar o foco de situações desfavoráveis. Após a invasão de Granada, ninguém mais se lembrava dos militares mortos e o governo demonstrou sua capacidade de derrubar um regime marxista no Caribe sempre que quisesse, independentemente de Cuba.
Hoje, a mesma estratégia parece se repetir, mas com novos protagonistas e novas distrações. Os arquivos de Epstein — nos quais Trump é mencionado mais de mil vezes — foram rapidamente ofuscados pela mídia, que se voltou quase exclusivamente à guerra no Irã ou ao lançamento da missão Artemis II, e antes disso para o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela.
“Por que o cachorro abana o rabo?”, pergunta Conrad Brean no filme. “Porque o cachorro é mais inteligente do que o rabo. Se o rabo fosse mais inteligente, ele abanaria o cachorro”. No universo de “Mera Coincidência”, o rabo é mais inteligente e nós somos convidados a ser os cachorros.