O futuro está aí e se chama bicicleta



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É UMA DAS GRANDES cenas do cinema. Butch Cassidy acorda Etta, a mulher de Sundance Kid. “Conheça o futuro”, diz Butch.

É a bicicleta. A cena é passada na segunda metade do século 19, e logo depois esse futuro pareceu estar representado não na bicicleta com a qual Butch leva Etta a um passeio cheio que aventuras, mas nos carros. Mas eis que o futuro anunciado por Butch chegou, depois de um desvio de mais de 100 anos.

Estamos na era da bicicleta como meio de transporte.

A bicicleta simboliza o espírito do tempo. É saudável. É barata. É simples. É boa para o planeta ao não enchê-lo de poluição. É, por tudo isso, chique, no melhor sentido da palavra. Andar de bicicleta faz bem — e pega bem. Os ciclistas têm hoje a aura de pessoas modernas, despojadas. Cool, para usar a palavra inglesa que em todo o mundo virou sinônimo de coisa legal.

COPENHAGUE CHEGOU AO FUTURO ANTES

Algumas cidades estão algumas curvas à frente. Copenhague e Amsterdã, nas quais estive recentemente, deslumbram pela presença ubíqua das bicicletas. Você vê crianças, jovens e velhos de ambos os sexos pedalando. Pode ser para passeio, mas muitas vezes é para ir ao trabalho, como se nota pelos trajes e pelas malas executivas acomodadas em cestos fixados à frente do guidão. São pessoas sozinhas, mas também podem ser famílias fazendo passeios. Algumas bicicletas, mais familiares, têm lugar para o transporte de bebês, protegidos por cintos como se estivessem em automóveis.

É o futuro.

O FUTURO tem que ser preservado. Os ciclistas das cidades socialmente mais avançadas têm um espaço definido nas ruas. Em Amsterdã, é uma faixa de cerca de dois metros entre a calçada dos pedestre e o espaço dos carros. Copenhague tem um prefeito das bicicletas, um funcionário que é responsável por zelas para que as coisas funcionem bem. Algum ponto é perigoso? O prefeito trata de deixá-lo seguro. Facilidades são vitais. Estacionamentos de bicicleta estão por toda parte.

Londres está atrás das cidades ciclisticamente ideais.

Mas decidiu pedalar ainda mais para recuperar o atraso. Nesta semana o prefeito Boris Johnson, um usuário contumaz, inaugurou com estrondo um serviço. O centro de Londres tem agora 6000 bicicletas públicas que podem ser usadas pelos londrinos para se deslocar por uma parte da cidade particularmente caótica em termos de congestionamento e poluição. Vejamos um vídeo do final do ano passado em que Johnson apresentava um protótipo e sigamos depois adiante.

O futuro está aí. Apenas é preciso enxergá-lo. Não me parece que muitos homens e mulheres da vida pública brasileira estejam enxergando a bicicleta, descontadas exceções como a militante Soninha Francine. Dou minha bicicleta ao primeiro que erguer as mãos se Dilma ou Serra tocarem no assunto em suas quilométricas promessas eleitorais.

Já sei. Vão dizer que bicicleta é perigoso nas ruas brasileiras. Que as ladeiras inviabilizam a bicicleta. Que há muitas prioridades sociais antes de chegarmos às bicicletas.

Podemos encher várias páginas com as objeções previsíveis.

Mas por trás delas, como sempre acontece, está o coro da resistência ao futuro, o nhenhenhém fastidioso dos que se batem, mesmo sem perceber, pelo imobilismo. Todos os obstáculos ao uso de bicicletas nas cidades brasileiras podem e devem ser vencidos. O futuro, como anunciou Buth Cassidy em primeira mão, está aí. Tem duas rodas e se move a pedaladas.

Só falta que seja visto.

O problema, quando demoramos a vê-lo, é que chegamos tarde a uma festa da qual os outros já estão tirando proveito faz tempo.