O futuro que nos aguarda: o caso de Lúcio Nery, mutilado pela terceirização. Por Joaquim de Carvalho

 

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Há mais de vinte anos, Marcos Bessanezi deixou a vida de empregado e montou o próprio negócio. Sua empresa tem um leque amplo de atividades: faz manutenção como terceirizada de empresas maiores e fabrica pufes. Há três anos, a crise chegou ao seu negócio e ele teve que reduzir o quadro de funcionários.

Eram oito, agora são quatro. Marcos até gostaria de recontratar alguns, porém o custo da mão de obra o impede de levar adiante seu plano. “Hoje, só um funcionário fica com oito por cento do meu faturamento bruto. Aliás, ele não fica, porque muito do que eu pago não vai para o bolso dele, mas para o governo e também para forma indireta, como descanso semanal e férias”, afirma.

Marcos calcula que as despesas com a manutenção dos quatro funcionários acabam representando mais da metade de todo o faturamento. “Ser empresário no Brasil é muito difícil. O risco é grande, as despesas também. Você tem que pensar muitas vezes antes de contratar alguém”, afirma.

Sua mulher, Edna, que divide com ele as responsabilidades pela administração, diz que o empreendedor parece ser penalizado quando dá emprego. “Quem dá emprego deveria ter incentivo, mas o que temos é só obrigação. O governo é sócio oculto, que fica com a maior parte do que nós faturamos”, afirma.

Para ela, quem dá emprego deveria receber incentivo. No caso deles, nunca houve uma ação judicial. “Procuro fazer tudo certinho. E nunca sofremos uma reclamação trabalhista”, conta Marcos. “Mas conhece muita gente que acaba sofrendo na Justiça do Trabalho, e são pessoas que também procuraram acertar, mas, se cair na Justiça do Trabalho, é muito difícil ganhar alguma coisa”, acrescenta.

Marcos acha que a terceirização poderia ajudar na abertura de novos negócios. Como terceirizado, o trabalhador passa a ser também um empreendedor e ganhar por resultado. “Me parece mais justo”, afirma.

Do outro lado, trabalhadores que já viveram a experiência da terceirização dizem que há situações em que tudo pode acabar em tragédia. Literalmente. É o caso de Lúcio Nery, que trabalhava em lavoura de café, na região do Triângulo Mineiro, quando enxergou numa empreiteira que prestava serviço para a empresa de energia CEMIG uma possibilidade de ascensão social.

“A pessoa olha para uma prestadora de serviço de empresa grande e acha que, trabalhando lá, fará parte da empresa grande. Não é assim. Eles são muito explorados”, conta José Henrique de Freitas Vilela, diretor do Sindicato dos Eletricitários de Minas Gerais. “Os terceirizados ganham menos, trabalham mais e não têm o mesmo tipo de treinamento”, acrescenta.

Lúcio era considerado pela empreiteira um bom eletricista. “Eu cheguei em um dia na empresa e logo depois estava no alto dos postes, trabalhando na rede”, afirma Lúcio. Um dia, por um erro de comunicação, ele colocou a mão numa rede que não estava desligada e tomou um choque que o fez perder os dois braços e uma perna.

Lúcio acha que, se não fosse terceirizado, haveria preocupação maior com treinamento e protocolo. “As terceirizadas precisam mostrar resultado, para receber, e por isso exigem mais do funcionário. Eu fazia muitas horas extras, trabalhava feriado, fim de semana, de manhã até a noite. Deu no que deu”, afirmou.

Para José Henrique, o que acontece na CEMIG está longe de ser exceção no Brasil, principalmente no setor elétrico. “Se a terceirização for aceita de forma ampla, com a mudança da lei, os empresários vão ganhar mais, e os trabalhadores serão massacrados. A exploração vai aumentar. Em todos os sentidos”, afirma José Henrique.

No caso da CEMIG, as empreiteiras trocam de nomes de tempos em tempos, e o trabalhador, para não ficar sem trabalho, deixa de procurar a Justiça. “É assim que funciona. No papel, você tem os mesmos direitos que os empregados que não são terceirizados. Mas, na prática, não é isso que ocorre”, conta.

Lúcio Nery passou quase onze anos prestando serviços para uma das gigantes do setor elétrico, mas, nesse período, passou por oito empreiteiras diferentes. “Quando uma estava indo à falência, os donos ou amigos deles abriam outra, com os mesmos sócios, e eu perdia direito a férias e a outros benefícios, mas não ia à Justiça porque todo mundo sabe que quem vai à justiça não é mais contratado por outra empreiteira. A gente costuma dizer aqui que muda o chicote, mas quem bate é a mesma pessoa”, afirma.

Lúcio criou a expressão dublê de eletricista. Ele diz que o terceirizado faz o serviço, mas ele não aparece, é invisível. E o que vai acontecer se a terceirização for amplamente aceita? “Nós teremos dublês em todas as atividades, o trabalhador ficará cada vez mais invisível, correndo todos os riscos e sendo cada vez mais explorado”, finaliza.

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