O general deles. Por Moisés Mendes

Bandeira do Uruguai. Foto: Pablo Porciúncula/AFP

Publicado originalmente no blog Moisés Mendes:

Os uruguaios não deixam a memória da ditadura e seus cúmplices em paz. A notícia de hoje no jornal Brecha é a descoberta de novos documentos com o registro de escutas telefônicas de um esquema em que generais perseguiram um general durante a ditadura (1973-1984) e muitos anos depois.

O general é Líber Seregni, que morreu em 2004 aos 88 anos. Sem ele, talvez não existisse a Frente Ampla, que ajudou a fundar, e a viabilização de um líder político como José Mujica.

Seregni já estava na reserva quando se opôs à ditadura, mobilizou as esquerdas pela criação da Frente Ampla e foi encarcerado por 10 anos. Seregni é o primeiro grande líder da Frente Ampla.

Libertado em 1984, continuou sob perseguição, como já mostraram documentos divulgados nos últimos anos, reforçados pelas revelações de agora sobre como os arapongas dos ditadores ouviam as conversas do general e da sua família.

O outro assunto que não sai dos jornais de esquerda é a continuação das escavações em um antigo quartel de Montevidéu, onde essa semana foi encontrado o cadáver de um desaparecido político.

Os uruguaios querem saber onde estão os restos de 194 desaparecidos (apenas quatro ossadas foram localizadas), com um bom argumento, resumido nessa frase do senador da Frente Ampla Rafael Michelini: “Seguir buscando é a melhor homenagem”.

Michelini é filho de Zelmar Michelini, também senador, assassinado em Buenos Aires numa das ‘trocas’ de prisioneiros da Operação Condor, que estabeleceu intercâmbios macabros entre as ditaduras da América Latina nos anos 70 e 80.

O resumo disso tudo, num momento em que a memória da resistência ganha vitalidade no Uruguai, é que eles tiveram um general que não só se rebelou contra a ditadura como articulou a organização da resistência numa frente impensável à época. Cada um com seus generais.

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