O genocídio e o saber. Por Moisés Mendes

Publicado no Extra Classe

Foto: Secretaria de Educação do Estado de São Paulo/Divulgação

Uma retórica cínica, que se repete em poemas, crônicas, discursos, memórias e relatos de todo tipo, exalta o professor como herói, desde que seja resignado e passivo.

Em quase todas as narrativas, nesses casos, o professor é um herói particular, da memória afetiva de alguém, com suas singularidades e seus afetos. Essa exaltação do mestre conformado é uma farsa.

Porque esse professor herói quase não existe nesses relatos como figura crítica, de ação, de fala e de bravuras coletivas, no contexto em que atua, com as dificuldades que enfrenta.

Sempre foi assim. Reacionários que hoje estão próximos da extrema direita amam romanticamente os professores da sua infância. Mas detestam os professores do século 21 e suas demandas por condições de trabalho, respeito, equipamentos e vencimentos dignos.

A pandemia só exacerbou esse conflito. Querem, a todo custo, que o professor-herói volte a trabalhar em aulas presenciais, mas sem o direito preferencial de ser vacinado.

Vacinaram os professores, em grupos prioritários, na maioria dos Estados americanos e em muitos países da Europa. Também vacinaram os mestres nos primeiros grupos preferenciais no Uruguai.

O Chile começou a vacinação de professores em fevereiro. Os professores estão sendo vacinados em São Paulo.

Mas na maior parte do Brasil querem apenas que os professores voltem a dar aulas presenciais. Porque os governadores não definiram prioridades com um mínimo de racionalidade, não compraram vacinas (como muitos ameaçaram fazer, apenas como blefe) e porque há pais exigindo os filhos nas escolas.

A Unesco fez um apelo, no final do ano passado, para que os professores fossem parte dos grupos prioritários. ONGs, sindicatos, entidades ligadas à educação, pais e avós de estudantes querem ver os professores de volta às salas de aula. Mas desde que vacinados.

Sabe-se que os próprios professores, estressados pelas demandas e dificuldades das aulas remotas, que exigem muito mais paciência e controle quase absoluto de equipamentos, métodos e tecnologias, querem retornar às aulas presenciais. Desde que vacinados.

O mundo está há mais de um ano numa situação esdrúxula em que muitos adolescentes, mais do que as crianças, fingem que estão estudando. No Brasil e em qualquer parte.

Os professores sabem disso. Os especialistas em educação acompanham tudo e também sabem. Um ano, para uma criança ou um jovem em aprendizado intenso e permanente, é uma década para um adulto.

Milhões de crianças em todo o mundo tiveram um aprendizado precário nesse período. Porque estão fora das aulas presenciais. Por falta de vacinas.

Enquanto não há imunizantes para os professores, o Brasil chega ao acinte do debate sobre a possibilidade de vacinação de jogadores de futebol. Porque eles se abraçam a cada gol. Empresários não desistem de furar a fila. Policiais conseguiram, em muitos Estados, a vacina que os professores não têm.

A pandemia escancarou verdades antes insinuadas ou sugeridas. Para o contingente terraplanista, negacionista ou simplesmente reacionário, a educação é um estorvo, principalmente a educação pública, e a educação do setor privado passou a ser apenas um negócio.

É mais do que aderir à estratégia deliberada do governo Bolsonaro de aniquilamento da educação, do ensino básico à universidade. É uma prática generalizada de depreciação cotidiana do ensino, em todos os níveis, em todas as esferas do poder executivo, de Brasília e dos Estados aos municípios.

O professor sem vacina é, entre todos os profissionais de atividades essenciais, aquele que o setor público considera menos essencial. É ele quem encaminha a formação do filho de quem o deprecia.

Mas o ultraconservador não está tão preocupado como parece com o aprendizado dos filhos. Ele quer guerra contra quem considera inimigo. E o saber é o adversário que o confronta com seus preconceitos e suas ignorâncias.

Para governantes e para muitos pais, o professor já não tem mesmo quase nada do que deveria ter, por direito e por merecimento, e por isso pode ficar sem vacina. O genocídio é um projeto que subjuga pelo alheamento e pela destruição de vidas. E que só estará completo se também destruir o saber.

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