O giro de Moro e Dallagnol pelos EUA em tempo de crise da Lava Jato: o que foram fazer lá? Por Joaquim de Carvalho

Deltan Dallagnol no Acton Institute

Pode ser só coincidência, mas não deixa de ser estranho que, num momento de crise da Lava Jato, os dois agentes públicos brasileiros suspeitos de conluio para corromper a Justiça estejam em solo norte-americano.

Deltan Dallagnol foi para Michigan, convidado pelo Acton Institute para fazer uma palestra. Trata-se de uma organização que usa argumentos religiosos para defender políticas ultra-liberais. 

Acton já foi apontado como parte da Atlas, uma rede ampla que apoia think tanks e políticos de direita no mundo todo, inclusive no Brasil.

Artigo publicado na revista Forbes, em 2012, informa que um dos financiadores do Acton Institute, é o bilionário de extrema direita Charles G. Koch.

Outro financiador é a fundação da família de Betsy DeVos, a secretária de Educação de Donald Trump. Betsy já foi, inclusive, presidente do Acton Institute.

Não é preciso dizer mais para entender que a Acton University, braço do Acton Institute, se trata é uma organização extremista.

Na página que divulgou a conferência, Dallagnol foi apresentado como procurador treinado em Harvard, coordenador da Lava Jato e responsável pela investigação de quatro ex-presidentes do Brasil.

Durante a palestra, realizada na quinta-feira, questionado sobre os vazamentos das mensagens secretas, Dallagnol disse:

“Foi um crime, eles roubaram mensagens. Mas, mesmo que tenham tudo, estamos absolutamente tranquilos. Mantivemos os mais altos níveis de rigor técnico ao longo da investigação”, afirmou.

Quem seriam eles? Os jornalistas do Intercept? Dallagnol não explicou, deixou no ar.

“Depois do ataque, nós saímos do aplicativo e apagamos tudo”, comentou, segundo reportagem da revista Veja.

Já o ex-juiz Sergio Moro aproveitará sua viagem aos Estados Unidos para visita a uma série de órgãos de segurança, inclusive a Força tarefa Conjunta de Investigação Cibernética Nacional (National Cyber Investigative Joint Task Force – NCIJTF), composta por mais de 20 agências, integradas pela comunidade de inteligência e pelo Departamento de Defesa.

O que é uma investigação cibernética?

É o que a Polícia Federal está fazendo em relação às conversas secretas de Sergio Moro.

Pelo menos em tese. 

É uma investigação que interessa a Moro não como ministro, mas como ex-juiz suspeito do conluio com Delta Dallagnol e sua turma para condenar o ex-presidente Lula.

Não quer dizer que vá usar a viagem para pedir colaboração para essa investigação, mas é possível, já que a linha de defesa de Moro e Dallagnol vai nessa direção: tirar o foco do conteúdo das mensagens, que revelam o conluio, e martelar no discurso de que ambos foram vítimas da ação de hackers.

Moro é o maior interessado nesse trabalho da Polícia Federal, e sua presença na National Cyber Investigative Joint Task Force (NCIJTF) o coloca numa situação que, para qualquer outro, poderia provocar algum desconforto.

Mas Moro parece não se incomodar com situações que possam gerar conflito de interesses. 

Em sua viagem, ele é acompanhado pelo diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, e  pelo diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado, Igor Romário de Paula, dois policiais certamente envolvidos na investigação sobre os hackers.

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A palestra de Deltan Dallagnol pode ser vista aqui. Não houve muitos questionamentos sobre o conluio, como se pode constatar a partir dos 44 minutos do vídeo.

 

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