O Globo, que criminaliza a divulgação dos diálogos da Lava Jato, roubou do ministro da Justiça o projeto da Anistia e o publicou

A cena passa-se no longínquo 27 de junho de 1979, dia escolhido pelo governo do general-presidente João Baptista Figueiredo para anunciar e enviar ao Congresso Nacional o projeto de lei de anistia aos políticos punidos pelo golpe militar de 1964.

O jornal da família Marinho, para surpresa do governo militar e de toda a mídia, chega às bancas estampando em sua manchete, em letras garrafais e caixa alta: O GLOBO DIVULGA O PROJETO DA ANISTIA.

As duas linhas do título ocupavam toda a largura da primeira página, que em duas colunas à direita desfiava todo o texto do projeto que “O GLOBO obteve esta madrugada”.

Naquela mesma edição, em suas páginas internas, com uma boa dose de ironia, o jornal informava que no dia anterior o projeto havia “desaparecido” praticamente do colo do então ministro da Justiça, Petrônio Portella, senador da Arena do Piauí, durante audiência que ele concedia aos também senadores Luiz Viana Filho (BA), presidente do Senado, e José Sarney (MA), presidente do partido de sustentação da ditadura.

Foi durante essa audiência que o projeto sumiu da poltrona onde Portella deixara o texto descansar.

Como o Globo era o principal porta-voz da ditadura, os colegas dos outros jornais reagiram indignados, afirmando que o diário do Rio de Janeiro havia recebido do governo, e de bandeja, o projeto de anistia.

O que não era verdade, apesar das evidências.

O que aconteceu foi que, aproveitando-se de um descuido de Petrônio Portella, os dois repórteres do Globo que cobriam o Ministério da Justiça e apinhavam a sala do ministro com mais uma dezena de outros jornalistas simplesmente afanaram o documento.

Chovia fino e fazia frio naquela última semana de junho em Brasília.

No décimo andar do Edifício Oscar Niemeyer, na Sucursal do Globo, chefiada por Merval Pereira, os jornalistas passaram o resto daquela quarta-feira, dia 27, muito assustados.

O governo suspeitava que o projeto havia sido roubado por algum jornalista – Petrônio Portella aventou essa possibilidade – e os carros da Polícia Federal circulavam insistentemente pelo Setor Comercial Sul, onde também ficavam as sucursais dos outros jornais, com sirenes ligadas e metralhadoras empunhadas do lado externo das viaturas.

Naquela época, o diretor de Redação do Globo, no Rio, era o jornalista Evandro Carlos de Andrade.

Todas as noites, ao fechar a edição, Evandro telefonava para “o nosso companheiro” Roberto Marinho, como ele gostava de ser chamado, para informar as principais notícias que o jornal ofereceria aos seus leitores no dia seguinte.

Mas, naquela noite, Evandro escondeu de Roberto Marinho o material roubado. Ele temia que o velho abortasse a publicação de um furo que só o Globo tinha para não criar problemas com os generais.

Ao amanhecer do dia 27, com o jornal já nas bancas, Evandro ensaiou um pedido de demissão a Roberto Marinho, por sua infidelidade. Mas Marinho o surpreendeu, afirmando que era aquilo que ele queria do jornal dele.

Que saísse na frente, que desse as notícias em primeira mão, que não importava como a notícia chegava ao jornal, que não era crime informar ao leitor o que estava acontecendo.

Mais tarde, Evandro deixaria o jornal assumir a direção da TV Globo.

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