O golpe da Globo na autora de “Chiquinha Gonzaga” renderia uma novela. Por Nathalí Macedo

Dalva Lazaroni escreveu mais de 30 livros. Autora da obra que gerou a minissérie Chiquinha Gonzaga. Foto: Reprodução

A Rede Globo tem todos os defeitos do mundo. Mas, convenhamos, ela tem telenovelas sensacionais. Principalmente as antigas.

Lembra de Chiquinha Gonzaga?  Não é uma história criada pelos roteiristas globais muito antenados com as tendências mundiais de construção de saga. É de uma escritora carioca que já escreveu mais de trinta livros e morreu de câncer na semana passada sem jamais ter recebido o prestígio – e a grana pesada – que a obra rendeu à Globo.

Dalva Lazaroni escreveu “Chiquinha Gonzaga. Sofri e chorei. Tive muito amor”, sobre a compositora Francisca Edwiges Neves Gonzaga, e o fez com paixão tal – pobres e ingênuos escritores apaixonados – que cedeu todos os direitos autorais da obra à Rede Globo. De graça. Só pra ter o prazer meio ingênuo, meio egóico de todo escritor, numa época em que – que bom que os tempos são outros – ver algo que você escreveu brilhando na Globo ainda te trazia algum prestígio diante de si mesma. É, escritor não tem malícia.

Além de propôr o acordo absurdo na cara de pau, a Globo resolveu não dar os créditos à autora. Nem um take de dois segundos. Nem uma menção subliminar. Nada.

Isso é decerto um golpe pra qualquer escritor. Dalva resolveu reclamar seus direitos autorais diretamente com a Globo, que prometeu passar a colocar os créditos mas descumpriu a promessa.

Custava?

A autora então resolveu entrar com uma ação judicial pra reclamar os direitos, mas a Globo e seu jurídico de cobras criadas protelou o processo propositalmente por anos a fio. Quando finalmente saiu a sentença de primeira instância, concedia à autora 150 mil reais pelos danos morais ao que o juiz chamou de “baque psicológico”. Excelência, isso está mais pra uma queda no vácuo. 150 mil é um troco perto do que a Globo faturou em cima da obra dos outros, e por qual razão um juiz minimamente sensato não consideraria os danos materiais para arbitrar o valor da sentença, apenas os morais?

Estranho, pra dizer o mínimo.

A mulher só queria ser reconhecida pelo que fizera e receber o que era seu por direito. Mas, para a Globo, arte e ética não têm qualquer relação.

O que esperar da Globo, mesmo?