O governo caminha para um não-lugar? Por Gilberto Maringoni

Atualizado em 13 de abril de 2024 às 9:24
Lula, presidente do Brasil. Foto: Evaristo Sá/AFP

Elon Musk até aqui vence a batalha política. O governo, mais uma vez, recua diante de quem lhe exiba algum poder. Estamos diante de uma ofensiva internacional, cujos sinais têm pelo menos quatro anos. Quem mantém os brios nacionais e democráticos é o ministro Alexandre de Morais, que não é formalmente um dirigente político. O titular da Secom, Paulo Pimenta, depois de ensaiar falar grosso, dá cinco passos atrás e afirma não existirem planos para que o governo rompa contratos com a Starlink na Amazônia. Autoridades seguem com suas contas no X, como se nada tivesse acontecido, e a publicidade oficial se espalha pela plataforma. Pimenta não age: fala como se fosse ombudsman do governo.

Em política muitas vezes é preciso recuar, reorganizar tropas para retomar a ofensiva. É a velha história de dois passos atrás e um adiante, de que nos falava um antigo sábio oriental. Aqui, não. Depois de um passo atrás vem outro, e mais outros, achando que com isso se pacifica o país e retoma-se o diálogo com quem planeja a sua destruição.

A gestão parece não ter comando, tática ou estratégia para um combate de fôlego (O bolsonarismo tem direção centralizada e articulações além-fronteiras. Jogo de cachorro grande). Não deveria ser assim. Aliás, havia tudo para não ser assim. Há quarenta dias, qual era o mote na torcida lulista? O de que 28 oficiais militares eram investigados pela Polícia Federal e que Bolsonaro estava com um pé na cadeia, depois de ter o passaporte apreendido. Diante da pressão, a extrema-direita resolveu jogar alto e convocou as massas para a Paulista. Se não virou o jogo a seu favor, recobrou a ofensiva diante de um governo que se esmera em propagar a pequena política, em se autoelogiar a todo momento e em não exibir formulação política alguma.

O passo seguinte foi o vergonhoso recuo diante dos 60 anos do golpe de 1964. Ninguém explicou ao certo os motivos. Poderiam invocar Jânio Quadros a bradar que “forças ocultas” estariam por trás de tudo. Depois de transigirem com a democracia, como demonstrar altivez diante da sociedade?

Lula é nossa última barreira diante do fascismo. Sem Lula estaríamos muito pior. Tudo é verdade, mas não pode ser um mantra para o conformismo. O problema é que o governo recua diante de Musk, dos militares, da Faria Lima, da Globo, das fundações empresariais no MEC e não dá sinais de se colocar ao lado de sua base social.

Elon Musk, bilionário de extrema-direita. Foto: reprodução

No meio disso tudo, seguem as juras de fidelidade aos mercados pelo déficit zero e pela redução dos pisos em saúde e educação. Lula reclama que os movimentos sociais não se mobilizam em favor do governo. Mobilizar em defesa do quê, mesmo? Sem fazer assentamentos de reforma agrária, com reajuste zero aos servidores, com um PL da Uber que precariza ainda mais o mundo do trabalho fica meio difícil.

Ao colocar todo o governo para funcionar na lógica do ajuste fiscal, gastar se torna um problema. O investimento viria pelas mãos da iniciativa privada, repete um Fernando Haddad que até aqui não explicou em que tempo ou lugar da História isso aconteceu.

Nessa toada, acossado pela extrema-direita, fustigado pelo centrão e atacando sua base social, o governo pode ocupar um não-lugar na disputa política, sabotado pelos de cima e não merecendo confiança de parte dos de baixo. Vamos combinar: a direita tolera Lula por ele ter vencido as eleições e por exibir alta legitimidade popular. Mas a queda nas pesquisas é visível e o fiasco eleitoral nas principais cidades em outubro podem colocar em perigo a blindagem que ainda caracteriza a administração federal. A chamada grande mídia já manipula cartuchos de supostas denúncias de corrupção aqui e ali.

Os problemas não vêm do fato de termos uma gestão de frente ampla. Até aqui, Alckmin, Tebet ou o STF não colocaram empecilhos de monta na condução dos negócios públicos. A crise na Petrobrás se dá exclusivamente entre membros do PT – Prates, Costa, Mercadante e Haddad – e as artes e partes da condução econômica repousam nas mãos do partido.

Repetindo: sorte termos Lula. É preciso apoiar seu governo resolutamente, pois do outro lado está o fascismo. Mas o poder Executivo precisa sair de seu administrativismo burocrático e de sua pusilanimidade preocupante e vir para a luta política. O não-lugar na política é o abismo.

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