O governo na defensiva. Por Aldo Fornazieri

Atualizado em 1 de março de 2026 às 23:58
O presidente Lula. Foto: Evaristo Sá/AFP

Por Aldo Fornazieri*

O governo Lula e o campo político-partidário que o apoiam regressaram novamente ao modo defensivo. Durante o terceiro mandato, experimentaram, em 2025, um breve lapso de ofensividade por ocasião dos embates da PEC da blindagem e da campanha contra o Congresso por votar pautas em favor dos ricos e contra os pobres.

Ao longo desses anos, chamamos a atenção várias vezes para as consequências negativas do defensivismo político, para a inexistência de um estado-maior (um comando político no governo), para os erros de discursos e políticas (exemplo do Pix), para os equívocos da comunicação e para a apatia dos partidos da base governista. O governo se expressa por duas sínteses: uma articulação política desastrosa e uma comunicação incompetente.

O resultado era previsível: Lula e o governo se arrastando nas avaliações, com índices mais negativos do que positivos. O governo e os partidos da base são incapazes de traduzir em ganhos políticos os bons dados da economia, relativos à inflação, ao desemprego, ao crescimento do PIB, ao aumento da renda familiar e do poder de compra, aos programas habitacionais, ao Pé-de-Meia etc.

Lula e adolescente seguram cartão do Programa Pé-de-Meia. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

As últimas pesquisas vêm mostrando uma estagnação resiliente da intenção de voto em Lula e um crescimento consistente de Flávio Bolsonaro, depois que ele foi definido como candidato do bolsonarismo. A pesquisa Quaest de fevereiro mostra que a distância entre Lula e Flávio se encurtou para apenas cinco pontos nas simulações de segundo turno.

A estratégia do defensivismo político, em regra, conduz a derrotas. Somente em condições de extrema dificuldade e de grande adversidade na correlação de forças a estratégia se justifica. Não é o caso do governo, até porque ele é governo e dispõe de vários instrumentos e meios de poder.

A passividade e a cautela do governismo foram assumidas desde os atos golpistas de 8 de janeiro. O campo governista terceirizou a luta em defesa da democracia, delegando a tarefa ao STF. Governo e partidos se acomodaram à manutenção das posições de poder conquistadas. Como o poder tem natureza expansiva, a mera manutenção se erode, e a estratégia se torna defensiva e derrotista.

Com o defensivismo, as forças opositoras aumentam seus ataques, criando dificuldades crescentes ao governo que, por não ter comando político, reage com erros sucessivos. O mais notório foi a crise do Pix no início de 2025. Nas últimas semanas, o governo persiste na escalada de equívocos, a exemplo do desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói e da taxação das importações de bens de capital e de outros itens.

São erros grosseiros e bisonhos, dignos de amadorismo. No caso da Acadêmicos de Niterói, houve evidente articulação entre o Planalto e a escola. Ainda no ano passado, a senhora Janja e duas ministras visitaram a escola. No caso do aumento do imposto de importação, era evidente, como a luz do sol, que o ato provocaria estragos enormes em ano eleitoral. Tudo isso revela que o governo opera sem análise de risco em suas decisões e ações. Move-se por impressionismo, espontaneísmo e amadorismo, princípios contrários à ação dirigente.

A oposição está auferindo o máximo de ganhos com os dois eventos, sem que os defensores do governo tenham argumentos razoáveis para defendê-lo. Pior: o governo se deixou contaminar pelos dois maiores escândalos do momento: o do INSS e o do Master.

Fábio Luis Lula da Silva, Lulinha, filho do presidente Lula. Reprodução

No caso do INSS, entre outros alvos, o foco é Lulinha. O problema cresce em dimensão sem que o governo tenha gestão sobre o assunto. Ora, se Lulinha é inocente, deveria ter oferecido a abertura do sigilo bancário desde as primeiras menções. Se é culpado, revela que Lula e o PT não aprenderam nada com as acusações e escândalos do passado. Na CPMI, os petistas dormiram no ponto e permitiram a quebra do sigilo do filho do presidente.

No caso do Master, vários ativistas de esquerda classificaram as exigências de apuração do escândalo e de afastamento do ministro Toffoli da relatoria como lavajatismo. Quer dizer: o governo e os partidos da base perderam a agenda republicana de combate à corrupção, aos privilégios, aos penduricalhos e aos supersalários. A oposição vem se apropriando dessa agenda nas redes e nas ruas, criando um ambiente negativo para o governo que, quanto mais se alastra, mais difícil se torna de contornar.

Os ataques do bolsonarismo nas redes não têm resposta. Assim, as narrativas mentirosas assumem o estatuto de “verdades”. Com os atos de protesto do dia primeiro de março, a oposição ensaia uma retomada das ruas, fazendo crescer a pressão sobre o governo. Em São Paulo, foram mais de 22 mil pessoas na Avenida Paulista.

Manifestante do movimento de extrema-direita “Acorda Brasil”. Reprodução

Com a chamada “Acorda Brasil”, as lideranças de direita retomaram a pauta da anistia a Bolsonaro e aos golpistas, pediram “Fora Lula”, “Fora Toffoli” e “Fora Alexandre de Moraes”, ligando o caso Master ao governo e ao STF. No caso Master, enquanto o governo agasalha em seus braços uma criança que não é sua e a acalenta, os artífices do escândalo — os governadores Ibaneis Rocha e Cláudio Castro e vários políticos do centrão, associados aos dirigentes do banco — saem à francesa, sem ser notados.

Nos discursos, os líderes da direita apelaram para a mobilização e o ativismo. Sustentaram que o Brasil “está indignado, inconformado com tudo o que está acontecendo”. “Eles têm medo da nossa voz”, disse o governador mineiro, que cortou em mais de 90% as verbas da prevenção de enchentes. Michelle Bolsonaro vem sendo esculpida como a imagem viva da dor e do sofrimento, por conta das “injustiças” praticadas contra o seu marido.

É preciso notar que, quando não há combate e enfrentamento, os pecadores se tornam santos, as mentiras se tornam verdades e os rapinantes são vistos como salvadores. Este é um processo que se alimenta de duas vertentes: a ofensiva das oposições e a passividade acovardada do governismo. As esquerdas precisam olhar não só para aquilo que a direita faz, mas também para aquilo que deixam de fazer.

Enquanto Bolsonaro, da cadeia, vem montando chapas em vários estados, o governo, com todo o aparato de poder, se mostra lerdo e confuso, sem liderança, sem comando, embasbacado, empacado em vários estados, à mercê das tensões particularistas de vários políticos e grupos. Quando falta comando e liderança, o particularismo dos interesses egoístas provoca a erosão dos projetos gerais orientados para o bem público. O combo de erros e a passividade do governo hoje agravam o risco não só de uma derrota grave no Senado e nos governos estaduais, mas da própria reeleição de Lula.

*Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder