O herói involuntário que derrubou o Muro de Berlim

Gorbachev: o que Lênin começou em 17 ele liquidou em 89

ALGUMAS PESSOAS fazem coisas importantes pela grandeza, outras pela pequenez. Mikhail Gorbachev está na segunda ala. Gorbachev, por ser um “político fraco”, na definição precisa e recente de Lech Walesa, o sindicalista bigodudo e bonachão que chacoalhou a Polônia nos anos 80, realizou a maior façanha do século passado: o desmantelamento da União Soviética. O que Lênin iniciou em 1917 com sua força de vontade épica, cruel e desumana de tão potente Gorbatchev liquidou com sua simpatia inepta há 20 anos. Neste momento em que o mundo comemora a Queda do Muro, Gorbachev, o sorridente líder comunista que tinha na cabeça uma mancha que parecia tatuagem, volta à manchete.

Vídeos históricos mostram Gorbachev descendo de seu avião na Alemanha Oriental em outubro de 1989, para assistir à patética festa de 40 anos de um regime moribundo que levara à realidade como nenhum outro a idéia aterradora de 1984, o romance clássico em que George Orwell desenha uma terra controlada avassaladoramente por seu líder, o Grande Irmão. As imagens deste curta-metragem sem palavras gritam. Gorbachev era ansiosamente esperado, em terra, por Erich Honecker, a envelhecida marionete de Moscou que desde o começo dos anos 60 oprimia os 17 milhões de alemães orientais. Era precária a situação de Honecker e seu regime, encurralados pela insatisfação generalizada do povo emparedado pelo Muro, e ao trocar três beijos com Gorbachev ali na pista mesmo ele carregava a esperança de que, mais uma vez, os tanques russos resolvessem a questão. Acontecera em Budapeste em 56, em Praga em 68 e Honecker torcia que mais uma vez, em 89, os tanques russos esmagassem as esperanças libertárias.

(Leia aqui o post “Como era a vida no lado de lá nos tempos do Muro de Berlim”)

A China acabara de usar a fórmula do esmagamento na Praça Celestial, com o sucesso repulsivo que o tempo tornaria claro, e na Alemanha Oriental mesmo manifestações de trabalhadores insatisfeitos com a jornada de trabalho, em 1953, tinham sido aplacadas pelos tanques russos, que se locomoveram pelas ruas de Berlim como crocodilos gigantescos prontos a devorar as pessoas em nome das quais, teoricamente, os líderes governavam o país.

Por que não mais uma vez?

Dias antes, numa das profecias mais fracassadas da história contemporânea, Honecker dissera que o Muro de Berlim estaria erguido ainda por mais 40 ou 50 anos. Também naqueles dias o outro Erich da Alemanha Oriental, Mielke, chefe da odiada Stasi, a polícia secreta tão bem retratada em A Vida dos Outros, discursara num banquete por quatro horas a seus comandados esfomeados para dizer que tudo estava sob controle. Beleza, camaradas. Desde que os controladores soviéticos agissem, como se vira na China.

Honecker queria tanques russos, mas Gorbachev deu apenas beijos

Gorbachev beijou Honecker, mas, ao contrário do líder chinês Deng Xiaoping, manteve estacionados os tanques, mais por indecisão e tibieza do que por fortes convicções democráticas, que de resto seriam estranhas num homem que fizera carreira num partido que matava oponentes reais e imaginários com a sem-cerimônia com que um camponês russo toma vodca. O resto é história. Picaretas, martelos e pontapés no muro no que alguns chamam de Revolução Pacífica e em que outros não enxergam elementos revolucionários suficientes que se empregue uma expressão tão pomposa.

Imóveis os tanques, a história seguiu seu curso. Em meados de1961, o presidente americano John Kennedy dissera temer a construção de um muro em Berlim que dividisse fisicamente a cidade em duas. Todos os dias, dezenas de alemães orientais estavam trocando de lado, e eram os melhores cérebros, gente culta, formada. “Os russos estão perdendo Berlim Oriental e não podem perder”, comentou privadamente Kennedy diante do exuberante vazamento populacional do lado de lá. “Eles vão ter que fazer alguma coisa, um muro talvez.” Fizeram, na calada da noite de 12 para 13 de agosto, sob os olhares covardes e paralisados das três potências que controlavam o lado ocidental alemão, Estados Unidos, Reino Unido e França. “Até que enfim esses caras fizeram alguma coisa”, desabafou dias depois uma autoridade da Alemanha Ocidental quando soldados americanos, britânicos e franceses basicamente fingiram estar dispostos a reagir enquanto as toneladas de concreto, arame farpado e cimento iam se acumulando na fronteira. Naquele jogo se sabia quem intimidava e quem era intimidado. No célebre momento em que tanques russos e americanos ficaram cara a cara na fronteira, no que para alguns poderia ser o prefácio de uma guerra nuclear de aniquilamento geral, a versão mais acreditada pelos historiadores é que os tanques americanos deram marcha à ré quando o clima ameaçou ficar pesado.

(Leia aqui o post “Berlim, 20 anos depois da queda do Muro: meu relato”)

Por quase 30 anos o Muro de Berlim, provavelmente a construção mais feia da história da humanidade, um monstro arquitetônico cinzento, simbolizou, mais que a Guerra Fria que opunha americanos e soviéticos, a natureza tenebrosa do comunismo não tal como fora sonhado por pensadores generosos e românticos em suas utopias sublimemente impossíveis, mas como fora tornado realidade por déspotas sanguinários como Stálin, Nikita Khrushchev e Leonid Brejnev. Todos eles estavam muito mais interessados na preservação de sua vida de privilégios dignos da corte dos czares em seu fausto, dentro da lógica orwelliana de que todos são iguais mas alguns são mais iguais que os outros,  do que em efetivamente tirar o povo russo e não só russo de sua secular pobreza oprimida. Os alemães orientais sequer podiam comprar bicicleta sem ter licença. Até para o adultério você tinha que pedir licença. Um funcionário da Stasi casado comentou certa vez com um colega que estava saindo com uma camarada, e não para discutir a luta de classes ou o Manifesto Comunista. O colega o dedou e ele ficou três dias numa solitária. “Você pode ter caso, mas nós temos que saber”, justificou o chefe. Nem os empregados da Stasi eram felizes na Alemanha Oriental, eles que promoviam uma angústia aterrorizada entre berlinenses que tiveram o azar de estar do lado errado quando se fez a divisão.

Kennedy, desprezado pela sua contraparte soviética, Khrushchev, como um menino rico e mimado, além de mulherengo interessado mais nas questões sexuais que nas de Estado, acertou duas vezes ao mirar a Alemanha Oriental, a primeira em vida, ao prever o muro. O segundo acerto seria trazido, 28 anos depois, pela posteridade. Perdida a Alemanha Oriental, a União Soviética foi mesmo para o beleléu, sob Mikhail Gorbachev, o comunista bonzinho, o herói involuntário, o russo afável que mudou para melhor o mundo não propriamente pelo que fez mas pelo que, ao contrário da cartilha de seus antecessores, não fez: colocar os tanques nas ruas. Em sua pequenez grandiosa, Gorbachev foi essencial para que a humanidade se livrasse do pesadelo começado em 1917 na Rússia por um certo bolchevique chamado Vladimir Ulianov, aliás Lênin, um homem tão determinado que parou de ouvir seu amado Beethoven para não amolecer a têmpera e jamais hesitou em se livrar de queridos e velhos camaradas, como Julius Martov, quando achou que eles atrapalhavam a marcha da revolução.

Gorbachev vai ser festejado no aniversário da queda do Muro de Berlim — e tudo que se fizer e disser em aplaudidos discursos previsíveis será pouco, ainda que seu feito espetacular se deva mais a sua fraqueza tão oportuna para a humanidade do que a uma grandeza que não tinha.