O homem que vazou os dados do esquema de vigilância nos EUA

Refugiado em Hong Kong, Edward Snowden diz que não quer viver “em uma sociedade em que tudo é gravado”.

Snowden
Snowden: Bond é para os fracos

Um ex-assistente técnico da CIA é o homem responsável pelo vazamento de informações que levaram a um dos mais importantes escândalos na história política recente americana. Edward Snowden tem 29 anos e trabalhava na consultoria Booz Allen. Foi funcionário da Agência de Segurança Nacional nos últimos quatro anos.

Na ASN se revoltou ao ver como o governo americano monitora pela internet a vida das pessoas. Nos servidores de companhias como Google, Microsoft e Facebook, os serviços de inteligência dos EUA têm livre acesso a emails, chats, compras — a tudo, enfim, que os cidadãos imaginam fazer protegidos pelos direitos de privacidade.

Snowden é o espião dos nossos tempos. Não um tipo afetado que fala inglês com um ovo na boca, tomando martíni e pilotando carros vintage, como Bond, mas um nerd que trabalha em casa com um computador e é ativista de direitos humanos.

Ele fez o cálculo certo: o fato de sair à luz do dia o torna um alvo mais difícil para quem quer que queira apagá-lo. Digamos, o governo americano. Além disso, ele declara que está seguindo um princípio moral: “Eu não tenho nenhuma intenção de esconder quem eu sou porque sei que eu não fiz nada de errado”.

Ele pediu para sair do armário, segundo o Guardian, jornal que publicou suas revelações. Para Glenn Greenwald, autor do furo, Snowden tem a mesma estatura de gente como Daniel Ellsberg e Bradley Manning. Ao entregar os documentos secretos da Agência de Segurança Nacional, ele adicionou um bilhete: “Eu entendo que vou sofrer por meus atos”.

Snowden foi entrevistado por Greenwald e outro repórter em Hong Kong, para onde se mudou (viveu no Havaí até maio). Ele optou por fugir para Hong Kong porque a China é um dos poucos países do mundo que não vão ceder a pressões de extradição dos Estados Unidos.

Sua explicação para ter se tornado o chamado “whistleblower” (o termo para definir quem passa segredos de estado para a imprensa) é quase prosaica: “Eu não quero viver numa sociedade que faz esse tipo de coisa… Eu não quero viver num mundo em que tudo o que eu faço e falo é gravado. Isso não é algo que eu vá apoiar ou aceitar”.

“Há coisas mais importantes do que dinheiro. Se eu fosse motivado por dinheiro, poderia ter vendido esses documentos para quaisquer países e ficado muito rico”.

Snowden é descrito como calmo, inteligente, simpático. É mestre em computação. Apoia organizações a favor da livre circulação de informações na internet. Está compreensivelmente tenso. Durante o encontro com os jornalistas, um alarme de incêndio disparou e ele entrou em parafuso. “Isso não aconteceu antes”, disse ele.

Desde que fez o check-in no hotel onde está hospedado, saiu apenas três vezes do quarto. A conta está alta. Ele coloca travesseiros na porta para se prevenir. Cobre a cabeça e o computador com um pano vermelho para que a senha não seja descoberta por câmeras ocultas.

Não votou em Obama ou Romney nas últimas eleições. “Votei num terceiro partido. Mas eu acreditei nas promessas de Obama. Ele continuou com as políticas de seu antecessor”.

Obviamente, não vê chance alguma de voltar aos Estados Unidos. Conta com a possibilidade de ser preso por violar o Pacto de Espionagem. Sua esperança é buscar asilo na Islândia, país com tradição de defensor dos direitos na web. “Acredito que tudo isso valeu a pena”, afirma Snowden. “Não tenho arrependimentos”.

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