O incêndio na Cinemateca é a imagem síntese de um país que queima, em plena destruição. Por Eryk Rocha

Incêndio na Cinemateca

Por Eryk Rocha, cineasta e documentarista brasileiro

É preciso entender do que estamos falando. Não se trata de descaso nem de desgoverno. Bolsonaro e seu governo não são loucos nem psicopatas. O plano é muito mais consciente e estratégico. Se trata de um projeto político de estado que não tem vergonha de existir. Um governo que atua como máquina de guerra, violenta, eficaz e vitoriosa até o momento. Trata-se de um governo de extermínio e destruição.

Estamos submersos numa guerra cultural. Estão em curso muitas lutas e massacres simultâneos. Contra os povos originários, contra o cinema, contra a arte, contra os pobres, contra as favelas, contra a educação, contra a Amazônia, e muitos outros contras! Mas a favor de quem? Estamos diante de um massacre histórico! Aliás assim foi projetado o Brasil desde que se chama Brasil. O projeto escravocrata de uma espécie que assassina a mesma e outras espécies.

O fogo que queimou e destruiu parte da Cinemateca é a imagem síntese de um país que queima, em plena destruição. Essa destruição é uma política do estado-mercado.

Essa destruição está ligada também a desintegração da Ancine e das políticas públicas do Audiovisual que precarizou a vida de milhares de trabalhadores. Esta ligada a destruição da memória e da história “não oficial” que o cinema construiu ao longo de mais de um século. Está ligada a interrupção na criação de novas imagens e linguagens que sonham um outro país.

Está ligada a algo muito maior que é a submissão desse governo as elites do atraso, ao grande império e as grandes corporações e latifúndios. Não é incompreensão ou simplesmente desamor ou ignorância pelo cinema e pela cultura. Estamos falando de uma guerra Geopolítica entre impérios e do papel central e estratégico que o Brasil, o Cinema e o Audiovisual jogam dentro dessa disputa econômica/ comercial planetária.

Que papel joga o cinema e outras formas de imagem no mundo contemporâneo? O cinema sempre foi e hoje é (com suas múltiplas e infinitas telas!) mais do que nunca uma máquina de guerra! Estamos na era da expansão das grandes monoculturas da comunicação e do achatamento do pensamento.

A destruição da Cinemateca brasileira não está ligada a uma memória do passado, mas sim à memória como construção do futuro, pois nos faz lembrar quem somos e de onde viemos, e sobretudo o que podemos ser! Que imagens e sons queremos inventar como “povos”!

Com todos os riscos hoje não temos alternativas, a mobilização e a ocupação das ruas precisa ser urgente, diária, constante, combativa, inventiva, explosiva, surprendente, de todos os campos e multidões dos povos brasileiros. É preciso imaginação e luta política. Essa é a nossa força coletiva, e nesse momento nossa única chance de frear e derrubar esse governo genocida da morte!

Vamos relançar o teatro, a música, os tambores nas ruas! Vamos relançar as câmeras nas ruas! Cinema cinema cinema!