O início do fim do governo Bolsonaro se deu, ironicamente, no dia 17/1. Por Carlos Fernandes

Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP

“É pela ironia que começa a liberdade”, cunhou para a história o grande romancista, poeta e dramaturgo francês, Victor Hugo.

Ainda que num sentido paralelo, mais de 130 anos após sua morte, nada poderia descrever com mais exatidão a forma como se dá o início precoce do fim de um governo que nasceu sob o signo da estupidez e da ignorância.

Inseguro e vacilante desde suas primeiras horas, a “nova era” do Brasil começou exalando aquela peculiar desconfiança muito própria de quem sabe a discrepância entre o que fala em público e o que faz em privado.

Ciente do que foram suas quase três décadas de (in)atividade parlamentar – e tudo do que o diabo opera na grande oficina das mentes ociosas – Bolsonaro e família trouxeram para o Palácio do Planalto anos a fio de corrupção velada na mais cínica hipocrisia.

Não deu outra.

Já alvejado pelas balas que tinham como alvo o amigo e ex-assessor Fabrício Queiroz, Flávio Bolsonaro colocou na cabeça do próprio pai a alça de mira das investigações em que se encontra envolvido. Tudo via o generoso depósito de R$ 24 mil efetuado na conta pessoal da atual primeira-dama.

Tudo peculiarmente entrelaçado, os indícios contra a “família anticorrupção” já eram enormes quando Flávio decidiu deliberadamente sanar qualquer dúvida sobre a culpa coletiva dos entes queridos.

Aos dezessete dias da era da insensatez, Flávio Bolsonaro fez valer o que no passado recente era considerado um “escudo para a corrupção” pelos mais proeminentes defensores da moralidade pública.

Ao ingressar no STF com o pedido para que restasse garantida as benesses do foro privilegiado, a definição de culpado foi carimbada na testa do menino prodígio e de todos aqueles a quem mais interessam a morte por asfixia do caso Queiroz.

Sabedor que é do que fez e de tudo o que pode acarretar para todo o governo, achou por bem optar pela condição de culpado blindado à de investigado vulnerável.
Para quem a inocência não passa de uma miragem em um vasto deserto de culpabilidade, a escolha não é das mais estapafúrdias. O ministro Luiz Fux que o diga.

Tudo já seria um estrago monumental na imagem de um governo que ainda nem saiu das fraldas quando eis que as traquinagens dos “garotos” já não podem ser mais encobertas.

Se até então Flávio se arvorava na ideia de que “não era investigado” e de que seria Queiroz o único a esclarecer suas movimentações financeiras “atípicas”, a revelação de que recebeu 48 depósitos de R$ 2 mil em sua própria conta não só o desmoraliza completamente, como prova que o “esquema Queiroz” abasteceu diretamente os familiares do presidente Jair Bolsonaro.

O estrago é irreversível.

De novo, não se trata aqui de suposições, Flávio Bolsonaro embolsou efetivamente R$ 98 mil distribuídos em depósitos menores num intervalo de apenas um mês.

Considerando que um simples subalterno seu movimentou R$ 1,2 milhão em apenas 1 ano, dá-se uma ideia de que valores se pode chegar uma investigação séria sobre os anos de “atuação” do rapaz.

Não demora para que o cenário de terra arrasada invada de vez o salão presidencial. Afinal, sempre é bom lembrar, por muito menos uma presidente honesta foi ilegalmente deposta.

De toda sorte, independentemente do que venha a acontecer, o clã Bolsonaro já não possui qualquer legitimidade para continuar à frente de um país que precisa tão urgentemente se ver livre de políticos exatamente como eles próprios.

Que o início de sua derrocada tenha se dado a partir do próprio filho na data cabalística de 17/1, são as ironias que Victor Hugo, com tanta estética e elegância, nos assegurou como um começo de uma certa libertação.

Assim sendo, que marquemos com alegria essa data como o dia em que Flávio Bolsonaro se oficializou como o representante oficial da família mais 171 do Brasil.

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