
O ex-secretário municipal de Florianópolis João da Luz, investigado pelo Ministério Público de Santa Catarina por suspeita de favorecer um esquema de cartel no setor funerário, foi nomeado para um cargo comissionado na Celesc, empresa de energia ligada ao governo bolsonarista de Jorginho Mello (PL). De acordo com dados do portal da transparência da companhia, ele exerce a função de assessor técnico, com salário de R$ 22 mil mensais, e foi admitido no cargo em 5 de janeiro deste ano.
De acordo com informações de Mônica Bérgamo, da Folha, a investigação do MP-SC aponta que João da Luz teria recebido vantagens indevidas de empresários do setor funerário enquanto ocupava o cargo de secretário de Limpeza e Manutenção Urbana na Prefeitura de Florianópolis.
O nome do ex-secretário aparece na operação Mercadores da Morte, iniciada em 2022 para apurar a atuação de um suposto cartel na prestação de serviços funerários em Santa Catarina.
Luz foi nomeado secretário em janeiro de 2023 pelo prefeito Topázio Neto e permaneceu na função mesmo após o cumprimento de mandados de busca e apreensão relacionados à operação, realizados em novembro daquele ano. Ele deixou o cargo em abril de 2024.
Segundo o inquérito, o empresário Gineides Varela da Silva Júnior, dono de funerárias que atuam na capital catarinense, teria custeado uma viagem de R$ 6.200 realizada por João da Luz. A investigação também menciona o suposto presente de um chinelo da marca francesa Hermès, avaliado em cerca de R$ 4 mil, mencionado em conversas e associado a uma nota fiscal no mesmo valor.

De acordo com os promotores, o ex-secretário teria utilizado o cargo público para favorecer empresas ligadas ao grupo investigado. Entre as medidas apontadas estão a edição de decretos considerados favoráveis às funerárias, a retirada de fiscais responsáveis pela fiscalização do setor, a prorrogação irregular de contratos administrativos e a influência em processos de renovação de concessões para exploração de serviços funerários.
As investigações também identificaram práticas como redução deliberada da qualidade de caixões gratuitos, venda casada de serviços e indução de famílias enlutadas a contratar serviços considerados desnecessários. Ao todo, 16 pessoas foram presas durante as apurações.
A defesa de João da Luz nega irregularidades. O advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho afirmou que o ex-secretário “vê-se hoje submetido a um processo permeado por vícios e nulidades, cuja própria existência contrasta de forma gritante com a biografia íntegra que edificou ao longo de mais de vinte anos de vida pública”.
Segundo ele, a acusação “não dialoga com a história do homem que se formou no exercício do dever, criando uma tensão quase ontológica entre a realidade de sua vida e a narrativa processual que agora se lhe impõe”.
A Celesc informou que a investigação citada não possui relação com a companhia ou com suas atividades e que o funcionário não ocupa cargo de direção ou função gerencial.
A operação Mercadores da Morte teve desdobramentos posteriores. Entre eles está a operação Caronte, que levou à prisão preventiva do então prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro, em setembro de 2024, além de outros suspeitos.
Em fevereiro de 2026, a Polícia Civil de Santa Catarina realizou nova fase das investigações, batizada de operação Cortejo Oculto, que cumpriu oito mandados de busca e apreensão e determinou o bloqueio de bens avaliados em até R$ 15 milhões.