O Jânio que eu conheci e os motivos que me levam a crer que SP precisa da Erundina. Por José Cássio

Entre outras coisas simples, ela incentivava o skate (Imagem: reprodução)

Não é surpresa que o fator Erundina tem impulsionado a candidatura de Guilherme Boulos em São Paulo pelo PSOL.

A deputada não foi apenas a primeira prefeita eleita pelo PT na capital: foi a melhor do período pós-redemocratização.

E a dimensão da sua gestão é maior para quem viveu os anos ‘Jânio Quadros’, que governou a cidade pela segunda vez entre 1985 e 1988.

Jânio era um mala.

Certa vez esteve no bairro do Butantã, onde eu dava os primeiros passos na vida de repórter, e visitou a casa de Miguel Rizzo, um antigo correligionário.

Era hora do almoço. Tomou 2 garrafas de vinho e dormiu: foi sair de lá 5h da tarde, com a cara inchada e xingando todo mundo.

Gostava de circular de carro pela cidade e mandava parar quando notava que algo não era do seu agrado. Descia e dava ordem de prisão às pessoas.

Para educar os motoristas no trânsito, mandou pendurar carros acidentados nos cruzamentos, onde se lia numa placa da Prefeitura em letras garrafais: “O próximo será você”.

Perseguia os grafiteiros com o ódio que Bolsonaro persegue índios e negros.

De tão bêbado, no último ano nem governou: quem tocava a cidade era o Cláudio Lembo.

Jânio deprimiu São Paulo.

É neste cenário que surgiu Erundina com sua obsessiva ideia de inclusão.

A cidade começou a se movimentar. As pessoas foram se dando conta que o espaço público era de todos.

Minha mãe, que trabalhava como professora em Taboão da Serra, logo notou as mudanças. E foi por meio do transporte coletivo. De um dia para outro, mais ônibus começaram a circular. Havia, finalmente, acabado a era da lata de sardinha.

Os professores que o Jânio mandou embora foram readmitidos. Todos felizes e com perspectiva de melhora na sua qualidade de vida.

Erundina fazia coisas simples, como incentivar a molecada do skate, para ficar num único exemplo, e por coisas assim a população começou a se sentir empoderada.

Paulistano que é paulistano nunca quis viver de ostentação como um Andrea Matarazzo, que também concorre à prefeitura e se imagina dono da cidade pelo fato de seu avô ter sido multimilionário e deixado herança até a oitava geração.

O morador de São Paulo, na sua essência, é simples e trabalhador. Basta deixar que ele segue em frente.

Bruno Covas? Um moleque – esse sim nunca fez nada na vida! – e ainda por cima doente, escondendo da população seu real estado de saúde e correndo o risco de deixar a cidade nas mãos de Ricardo Nunes – que é de uma turma que só quem conhece pode dizer.

Falando o português correto, chegou a hora da acabar com essa baderna, como se a cidade fosse de A ou B.

São Paulo é do povo. É preciso que ele tome conta dela, movimentando seus bairros, tirando o capim das guias, arrumando as calçadas para os velhos não trupicarem mais.

É momento de estimular pequenos negócios, promover o disse-me-disse no bar. Integrar de novo o sistema de mobilidade, ocupar as praças e parques, os bares.

Temos de devolver aos estudantes o direito de circularem com apenas um passe de transporte no fim de semana todo. Para que eles possam ir a museus, festas, baladas, curtir as batalhas de rap, a Augusta na madrugada, andar de patins na Paulista aos domingos.

O morador da cidade precisa conversar, ter liberdade, ter voz.
Enfim, fazer acontecer. Se, no mínimo, um dia, lá na frente, ele tiver alguma história para contar já poderá dizer que valeu a pena.

Gosto de contar histórias assim, simples, sem pretensão alguma, porque nada disso eu li nos jornais, tampouco ouvi da boca de político demagogo.

Militei na política por alguns anos. E no meu tempo, modéstia à parte, fui lá e fiz.

Comandei eleição no meu bairro, o Butantã. Surramos os adversários que deu dó. Nunca jamais a nossa marca de votos foi alcançada – e acho que não será, pois nossa turma se desmobilizou por diversos fatores.

Meus filhos, Mateus, 12, e Alice, 16, são testemunhas oculares.
De pequeninos eu já punha na roda.

No bar do Sérgio, na igreja Santo Antônio do Caxingui, na boca de Paraisópolis e Vila Morse, onde fosse necessário lá estavam os dois com os pés sujos de barro – para desespero da minha querida mulher, Cássia – apesar de, no fundo, ela adorar.

Hoje meus filhos são conscientes, respeitosos com as pessoas, amáveis e honestos, e por isso são tão bem recebidos e queridos por onde passam, a despeito de terem perdido a mãe e viverem uma vida meio diferente da que tinham, agora que são criados apenas pelo pai.

Sou cria de São Paulo, mas, antes, sou cria da Erundina. Sou filho da inclusão, sempre.

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