O jornalismo de esquerda também tem lacradores moralistas. Por Moisés Mendes

Atualizado em 14 de fevereiro de 2026 às 7:50
O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Reprodução

Já existe um ‘Caso Toffoli’, assim carimbado nas capas dos jornalões. O estagiário do Supremo sabe o que acontecerá. Parte da mídia alternativa, independente, progressista ou de esquerda já está embarcando na história do Caso Toffoli.

E vai usar todas as palavras de ordem impositivas que os jornalões usaram e abusaram no lavajatismo: é preciso isso, é dever aquilo, é obrigação, é inadiável, é inegociável. Porque parte das esquerdas também gosta de ser julgadora, justiceira e lacradora.

Mesmo o jornalismo antifascista também caiu na armadilha da lacração do novo lavajatismo. Lacram para não parecerem fora do tom. Lacram para avalizar que agora o caso se chama Toffoli e, assim, camuflar tudo o que o caso Master ainda esconde.

Se o caso agora se chama Toffoli, o que vier depois será decorrência do caso Toffoli e ficará em segundo plano. Não há, para dar um exemplo, um nome para o caso, já esquecido, das fintechs da Faria Lima acumpliciadas com o PCC.

O nome que ficou é o dado pela Polícia Federal, Operação Carbono Oculto, que não tem impacto e só o ChatGPT sabe o que significa. No caso do Master, para que a lacração seja melhorada e amplie seus alcances, vamos agora de Caso Toffoli.

Não há como escamotear em torno da situação do ministro, dos constrangimentos para o Supremo e dos custos decorrentes da sequência de fatos sobre o caso, incluindo a suspeita de grampo da reunião de quinta-feira do STF.

Mas não precisa sair lacrando como se todos fossem Malus Gaspares, a anunciadora do clichê das tempestades perfeitas. Precisamos saber, como Lula deseja, quem ainda não apareceu como parte não só da pirâmide, mas do esquema de lavagem de dinheiro do Master.

O plano prioritário declarado dos jornalões é usar o caso Master não para desvendar estruturas mafiosas de gente importante do poder financeiro e empresarial e das facções políticas, mas para emparedar o Supremo.

Caso do Banco Master pode ter novas oitivas em janeiro
Fachada do Banco Master. Foto: Reprodução

O que vai resultar disso é resposta para, talvez, depois da eleição. Quando direita e extrema-direita nos dirão se, com Câmara e Senado hipertrofiados, poderão governar, mandar, cassar, impichar e desmandar, mesmo com Lula eleito.

É nesse ambiente que a esquerda imitadora da direita vai aperfeiçoando suas lacrações, para que não fique em desvantagem em todos os espaços a serem ocupados. E, assim, o jornalismo também se assemelha a grupos de tios do zap do “olha aí, veja isso, não perde esse aqui, passa adiante o que der, bate, ferra, massacra”.

Lacram e julgam sumariamente porque tentam buscar equivalências de tom e volume com as vozes das gritarias, ou não serão ouvidos. Lacram porque o lavajatismo contagiou amplos setores, não só da imprensa, e determinou que todos passem a gritar.

Lacram sem piedade até na condenação de Lula por ter aceitado a homenagem de uma escola de samba. Já lacraram e agora se acalmaram um pouco na definição lacradora de Fernando Haddad como liberal.

O fascismo se diverte, porque a lacração moralista do prende e arrebenta é a ferramenta deles em busca da síntese rasa e grosseira que fideliza audiências e ainda transforma muita gente em ativistas lacradores.

O Caso Master, se for transformado em Caso Toffoli, estará fazendo a mesma caminhada da Lava-Jato na caçada a Lula. Ninguém queria pegar corruptos dos quais ninguém lembra o nome.

Queriam pegar Lula. Como querem hoje ter como troféus as cabeças de ministros do Supremo, para que a Corte fique mais dócil e mais controlável por todos os que a Globo representa como incomodados por decisões do STF.

Queriam pegar Alexandre de Moraes, agora pegarão Dias Toffoli e, mais adiante, sairão atrás de Flávio Dino. Essa é a missão das corporações de mídia, que pautam sites e jornalistas de esquerda com informações e lacrações e orientam condutas lacradoras e justiceiras.

É o Carnaval dos blocos das lacrações. O autor deste texto irá se esforçar para não lacrar, mas não promete que será capaz.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/