O justiceiro devorado pela própria tese. Por Moisés Mendes

Publicado originalmente no blog do autor

Por Moisés Mendes

Vamos rememorar o que pensava Sergio Moro em julho de 2018, em entrevista à Folha, ao ser questionado sobre a legalidade da divulgação da conversa telefônica interceptada entre o ex-presidente Lula e a então presidente Dilma Rousseff, em 2016, cujo conteúdo foi entregue pelo próprio Moro à Globo.

Eis o que disse o juiz sobre aquele episódio em que ele violou leis e normas para validar o grampo (feito fora do horário autorizado) e bancar o informante de luxo da Globo:

“A escolha adotada desde o início desse processo era tornar tudo público, desde que isso não fosse prejudicial às investigações. O que aconteceu nesse caso não foi nada diferente dos demais. As pessoas tinham direito de saber a respeito do conteúdo daqueles diálogos”.

A tese era clara. A Justiça passa por cima de escrúpulos e leis e divulga o que pode ajudar na condenação de um réu, principalmente se esse réu for Lula.

O mesmo Sergio Moro, em junho de 2019, disse o seguinte em outra entrevista sobre as mensagens vazadas das suas conversas com Deltan Dallagnol:

“Na verdade, eu me manifestei ontem (9 de junho), não vi nada de mais nas mensagens. Havia uma invasão criminosa de celulares de procuradores, pra mim isso é um fato bastante grave ter havido essa invasão e essa divulgação. E, quanto ao conteúdo, no que diz respeito a minha pessoa, eu não vi nada de mais.”

E o que fez agora Sergio Moro, diante da divulgação de novos trechos das conversas escabrosas com Dallagnol e outros procuradores da Lava-Jato?

Recorreu ao Supremo para que as mensagens da Vazajato não sejam divulgadas e para que o STF casse o direito de acesso ao material por parte da defesa de Lula.

As mensagens foram liberadas aos advogados (e tiveram o sigilo derrubado) por determinação do ministro Ricardo Lewandowski.

Moro recorreu ao Supremo, tendo como advogada a própria mulher, Rosângela Moro. O recurso foi encaminhado a Edson Fachin, relator da Lava-Jato.

Com Fachin, como se sabe, tudo é possível. Mas o ministro poderia desautorizar uma decisão de Lewandowski, o que favoreceria Moro, o pregador arrependido da divulgação de grampos?

Sergio Moro está numa enrascada, diante de especulações sobre o conteúdo de conversas ainda não divulgadas. A lição que o humilha não veio dos juristas que ele esnobou, mas de um hacker.

Um bandido diz a Sergio Moro: nós nos igualamos no furto de informações.

Seria o caso de Lula e Dilma perguntarem ao ex-juiz o que o levou a mudar de ideia, se até agora ele parecia tão tranquilo sobre suas combinações com Dallagnol e sobre o direito de divulgar conversas alheias em nome do direito de todos de ter acesso à informação, mesmo as hakeadas por um juiz.
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