O lado negro do Balé Bolshoi

O ataque de ácido que desfigurou o diretor da companhia jogo luzes num mundo vaidoso e corrupto.

ballet bolshoi

Por Susanne Beyer, Benjamin Bidder, Wladimir Pyljow and Matthias Schepp

O recente ataque de ácido de que foi vítima o diretor artístico do Teatro Bolshoi chocou a Rússia e o mundo da arte. Enquanto os médicos lutam para salvar sua visão, os boatos circulam de que o ataque foi motivado por inveja profissional, por envolvimento num esquema de venda de ingressos ou por sexo.

O homem gostaria de ser chamado de “Andrei”, que, claro, é um pseudônimo. Ele estava vestindo uma camiseta preta quando chegou em um café de Moscou para conversar com a Spiegel depois de depor na polícia.

Durante quatro horas, Andrei sentou-se no café e falou ofegante sobre o Teatro Bolshoi como se tivesse de tirar algo terrível de seu peito. Ele diz que tem dedicado toda a sua vida ao teatro. “É nosso tesouro nacional”, diz, “mas agora a sua reputação está arruinada.” Andrei diz que o teatro mundialmente famoso degenerou em um “antro de bandidos”.

O conhecimento de Andrei dos bastidores do Bolshoi se estende por décadas. Ele afirma saber quem se aproveitou da reforma de seis anos, ao custo de 800 milhões de euros, para decorar sua dacha com vasos e placas da era Stalin que havia no teatro. Ele também diz que sabe quem ganha pelos bilhetes no mercado negro, e que bailarino é amante de um oligarca. Ele tem dado os nomes para a polícia.

Quando Andrei se refere ao Bolshoi, ele fala de escândalos, corrupção, sexo e negócios sórdidos. Teatros são o lugar ideal para narcisistas e egocêntricos. As linhas entre permitido e não permitido, entre moral e imoral, são diferentes em Moscou do que em cidades ocidentais. Aqui no Bolshoi, não é apenas a arte que reflete a sociedade. O Bolshoi é um microcosmo, corrupto e em ruínas, como o país em que ele opera.

O último acontecimento nas batalhas do Bolshoi foi o ataque sobre Sergei Filin, diretor artístico de 42 anos de idade, pouco antes da meia-noite de 17 de janeiro. Depois de uma apresentação de gala, Filin estava a caminho de seu apartamento em um prédio de 12 andares, onde vive com sua segunda esposa e dois de seus filhos. É um bairro bom, caro, mesmo para os padrões de Moscou. Corretores de imóveis promovem a região mencionando que muitos artistas do Teatro Bolshoi vivem no bairro.

Sergei Filin, o diretor artístico, após o ataque com ácido
Sergei Filin, o diretor artístico, após o ataque com ácido

Naquela noite, o chão estava coberto de neve. Filin estava chegando à entrada do seu prédio, quando alguém chamou seu nome. Ele virou-se e encontrou um homem mascarado, com a mão direita atrás das costas. Durante semanas, Filin vivia com medo de um ataque. Naquele momento, ele pensou que estava prestes a ser baleado.

Desconhecidos o haviam ameaçado repetidamente e seus dançarinos testemunharam que ele recebia telefonemas intimidadores com apenas uma respiração silenciosa do outro lado da linha. Em meados de dezembro, Filin pediu Anatoly Iksanov proteção pessoal para o diretor-geral do teatro, mas não deu certo.

Filin tentou fugir, mas o mascarado foi mais rápido. Ele jogou ácido sulfúrico na face de Filin. O funcionário do estacionamento correu para ele e lavou o ácido com neve. Mas seu rosto, olhos e couro cabeludo já tinham sido queimados.

Ele provavelmente foi desfigurado. O ácido sulfúrico extrai toda a água da pele, deixando o tecido enrugado e com cicatrizes. Obscurece e causa buracos na córnea.

Poucos dias após o assalto, Filin concedeu uma breve entrevista na TV de sua cama de hospital. Seu rosto estava envolto em gaze branca, e só a sua boca, nariz e olhos eram visíveis.

O balé é feito de beleza, e tudo o que os bailarinos têm é sua aparência e seus corpos. É a ferramenta deles para ganhar a vida. O assaltante não queria matar Filin, que ainda parecia um menino, apesar de seus 42 anos. Em vez disso, ele queria destruí-lo.

A notícia se espalhou rapidamente por todo o mundo do balé e da cultura. Andrei Busygin, ministro da cultura da Rússia, chama o crime de atentado contra a nação. “Isso nunca aconteceu antes”, diz. O Bolshoi é o palco da nação. Os czares o construíram no final do século 18, ele foi sucessivamente reconstruído após os incêndios. Foi concebido como um monumento à glória czarista. Sob a dinastia Romanov, a cortina do palco foi decorada com o águias imperiais douradas. Após a Revolução, em 1917, os bolcheviques usaram o edifício para realizar conferências do partido, e a cortina antiga foi substituída por uma foice e um martelo. Há rumores de que o ditador soviético Joseph Stalin tinha cavado um túnel secreto do Kremlin para o Bolshoi para que pudesse acessar diretamente o caixa do teatro. Stalin amava ópera e balé.

Ainda hoje, o Bolshoi é o lar da trupe de balé mais famosa do mundo, com 240 bailarinos. Cada bailarino do Bolshoi lançou as bases para uma carreira global. No entanto, a verdadeira batalha – a luta pela glória – só começa mais tarde. Bailarinos têm pouco tempo de carreira, talvez 20 anos. É o diretor artístico – Filin, pelo menos até a noite do ataque – que decide qual dançarina vai se tornar a maior estrela entre as estrelas. Quando Filin assumiu em março de 2011, ele sabia o que lhe estava reservado. A partir de então, muitos dos seus bailarinos o viram como seu maior inimigo.

Em janeiro de 2009, seu antecessor, Alexei Ratmansky, deixou o Bolshoi, porque sentia que tinha sido prejudicado por seu próprio pessoal: “Esse teatro não tem moral”, disse ele logo após o ataque. “Cambistas, fãs que fazem qualquer coisa por seus ídolos – tudo isso deixa o Bolshoi doente.”

Filin: talvez ele fosse ambicioso demais
Filin: talvez ele fosse ambicioso demais

Após Ratmansky, Gennady Yanin tornou-se o gerente da companhia. Ele também queria ser o diretor artístico, mas sua carreira no Bolshoi foi interrompida por uma campanha de difamação. Em 2011, alguém postou fotos dele e enviou o link para 3.847 destinatários. As fotos supostamente mostravam Yanin tendo relações sexuais com homens. A homossexualidade é amplamente desaprovada na Rússia.

Filin ganhou a vaga de diretor artístico. Ele era muito ambicioso – talvez demasiado ambicioso. O Bolshoi é o mais tradicional teatro do mundo. Diretores que se recusam a limitar-se a “O Lago dos Cisnes” e “O Quebra-Nozes”, e em vez disso se atrevem a encenar produções contemporâneas, são vilipendiados pelos críticos. Cada experiência é imediatamente rotulada como uma tentativa de “ocidentalizar” o Bolshoi.

Filin tentou modernizar o Balé Bolshoi. Em novembro de 2011, nomeou pela primeira vez um americano, David Hallberg, como o primeiro solista. Em 2013, Filin também inscreveu dois coreógrafos estrangeiros, Wayne McGregor, da Grã-Bretanha, e Jean-Christophe Maillot, da França.

Mais de 1.600 quilômetros a oeste de Moscou, Vladimir Malakhov trabalha como diretor artístico e primeiro solista do Balé Estatal de Berlim, o maior da Alemanha, com uma trupe de 88 bailarinos. Malakhov treinou em Moscou e é amigo íntimo de Filin. “Estamos de volta à era dos Medici”, ele perguntou, “quando as pessoas envenenavam umas as outras?”

Malakhov está familiarizado com os rumores sobre as razões do ataque. Ele diz que há um “negócio escuso” em torno da venda de bilhetes para o teatro e afirma que a vida na Rússia não pode ser comparada à vida na Alemanha. Malakhov acredita que o dinheiro arruinou tudo – alguns têm muito, enquanto outros têm muito pouco.

Ele não acha que os responsáveis ​​serão encontrados, mas que Deus vai vingar esse ato vil.

Em Moscou, o maior inimigo de Filin no Bolshoi é Nikolai Tsiskaridze. O bailarino de 39 anos foi candidato ao cargo de diretor artístico. Tsiskaridze acusou Filin de ser corrupto, e uma vez supostamente afirmou que gostaria de “matar todos os colegas a tiros de metralhadora”.

Mas Tsiskaridze também tem aliados. Em novembro, um grupo de artistas publicou uma carta aberta ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, instando-o a emitir uma ordem para nomear Tsiskaridze o diretor artístico do Bolshoi. Não surpreendentemente, especula-se que Tsiskaridze poderia estar por trás do ataque, mas ele nega qualquer envolvimento.

Volochcova, ex-primeira bailarina: "o Bolshoi é um grande bordel"
Volochcova, ex-primeira bailarina: “O Bolshoi é um grande bordel”

Sexo também é vendido no Bolshoi – ou pelo menos é o que afirma Andrei. Tais alegações foram confirmadas por Anastasia Volochkova, de 37 anos, ex-primeira bailarina do Bolshoi, que recentemente causou barulho na mídia por postar fotos reveladoras. Volochkova diz que agora vê seu antigo teatro “como um grande bordel”. Ela afirma que todos os bailarinos, tanto homens como mulheres, sabem que um convite para jantar de um patrono das artes ou um oligarca muitas vezes inclui esforços físicos não se limitam ao âmbito artístico. “Qualquer um que se recusa a entrar nesse jogo pode dar adeus à carreira”, diz ela. “Isso é o que minhas amigas no Bolshoi me dizem.”

Volochkova fez graves acusações contra o diretor-geral Anatoly Iksanov, que a demitiu em 2003. Enquanto os dois estavam em lados opostos de um processo na corte de Moscou, Iksanov supostamente enviou dois homens para seu camarim com um buquê de flores. “Um deles puxou uma faca do buquê”, diz ela, “e pressionou-me para retirar o meu processo contra Iksanov.”

No entanto, Volochkova diz: “Eu não tenho mais medo dele. Se algo me acontecer, todo mundo vai saber quem está por trás disso. Seria melhor Iksanov me enviar alguns guarda-costas”.

Vaidades feridas, rumores e insinuações. Qualquer um que olhe par aos bastidores do Bolshoi descobre um mundo sombrio de segredos e sussurros. E ninguém tem qualquer esperança de que o caso do ataque de ácido será resolvido.